Nosso 11 de setembro III

Há exatos 35 anos a direita fascista, em nome do império norte-americano, destruiu o sonho do povo chileno de se libertar. Impediu o povo chileno de escolher o seu próprio caminho. E, como sabemos, a burguesia quando não consegue o que quer utiliza os mais brutais métodos.

Para relembrar e saudar o legado da luta deste povo colocamos no ar no dia de hoje a canção Venceremos, de VIctor Jara. Está música se tornou o hino da Unidade Popular. Em 1970 os socialistas triunfavam nas eleições presidenciais, e a multidão invadia as ruas de Santiago para comemorar a vitória de Salvador Allende. Víctor, que havia participado intensamente da campanha, viu sua canção “Venceremos” transformar-se em hino de esperança na garganta de operários e camponeses. A partir dali, ele se tornaria o embaixador cultural do governo socialista, adquirindo prestígio internacional.

Plegaria a un labrador

Era uma quarta-feira de cinzas na América Latina, e cerca de 5 mil presos já lotavam as dependências do Estadio Nacional quando Víctor foi reconhecido por El Príncipe, um violento oficial de cabelos ruivos encarregado da triagem. (“¡Che tu madre! Vos sois el cantor de pura mierda!”) Do outro lado do portão, na tentativa de salvar o amigo, alguns colegas ainda tentaram confundir o militar, gritando “eu é que sou Víctor Jara!”, “eu é que sou!”, “eu é que sou!”

Mas o compositor, num gesto extremo de coragem e dignidade, levantou o braço, e cantou os primeiros versos de “Plegaria a un labrador” – a canção que anos atrás, naquele mesmo estádio, o transformava no maior expoente do movimento folk em seu país.
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¿Es tuya la guitarra, cabrón?

Víctor então é empurrado da fila por um soldado, e cai aos pés do oficial ruivo. Recebe coronhadas nos testículos, nos rins, e chutes no rosto. Sob a mira das metralhadoras, seus companheiros contemplam em pânico o caldo de sangue que começa a cobrir os olhos e os cabelos do cantor.

(Mas Víctor não se queixa. E a cada golpe, brilha um sorriso em seu rosto – o mesmo sorriso com o qual nunca deixou de cantar o amor pelo povo, e a esperança de revolucionar o mundo.)

Depois de algumas horas de tortura inenarrável, El Príncipe ordena que as mãos de Víctor sejam amarradas com arame farpado. Bastante ferido no rosto, e com várias costelas quebradas, ele é atirado num dos corredores do estádio, onde é obrigado a permanecer, sem comida nem água, até a tarde de quinta-feira, 13 de setembro de 1973.

(De repente, surge um soldado com um violão destroçado entre os braços: “¿Es tuya la guitarra, cabrón?”)
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¡Venceremos!

Víctor está sentado ao lado de um companheiro, que limpa as feridas de seu rosto dilacerado pelos golpes de fuzil. Seu nome é Boris Navia. (De súbito, Víctor pede lápis e papel.) O amigo então lhe oferece um caderno, e o cantor começa a escrever – mas é rapidamente interceptado por El Príncipe, que, indignado com a audácia do “poeta”, começa a insultá-lo: “¡Yo te enseñaré ahora, hijo de puta, a escribir canciones chilenas y no comunistas!”

(Víctor então é arrastado até o centro do estádio, onde está localizado um grande palco de madeira. Todos estão em pânico – “Traigan la guitarra”, ordena o oficial.)

Silêncio. El Príncipe sorri. Ao sinal do militar, dois soldados começam a golpear as mãos de Víctor Jara – uma, duas, cem vezes – esmagando com cuidado todas as falanges de seus dedos indefesos. (Aquelas mãos, que outrora tangiam os últimos acordes de esperança ao sofrido povo do Chile, agora, pouco a pouco, eram esfaceladas pela histeria fascista daquele oficial ruivo – até estarem completamente separadas do corpo.)

Um dos soldados sai para vomitar. O outro, agarrado ao fuzil, ainda golpeia a nuca de Víctor. El Príncipe acende um cigarro: “¡No estoy escuchando, hijo de puta! ¿No vas a cantar, carajo?” – e depois, com muita força, joga o violão sobre o corpo do compositor, para então soltar uma gorda baforada de divertimento.

(No entanto, em meio à fumaça, Víctor levanta os braços – e deixando as duas mãos dilaceradas sobre o palco, convida a multidão a transformar em música o sangue da sua tragédia: “¡Venceremos! ¡Venceremos! ¡La miseria sabremos vencer!”, ele canta… canta… canta… E o povo, entre lágrimas de terror e revolta, começa a acompanhá-lo.)

E esta foi a última vez que “el cantor” Víctor Jara foi visto com vida.

Texto original

http://www.navevazia.com/chimiageral/2007/11/el-estadio-vcto.html

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Uma resposta a Nosso 11 de setembro III

  1. Ricardo Lima disse:

    Cara muito bacana o texto, a luta de um povo latino contra a opressão de um ditador … bem bacana!

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