Proponho aqui um exercício de anacronismo. A proposta é um tanto grosseira, mas me parece que vale para pensar o nosso mundo e as nossas perspectivas de melhora (ou piora). A idéia é pensar 2 absurdos: pense no início dos anos 70 no Chile; e na atualidade brasileira. Agora cruze os distintos elementos de organização popular que caracterizam cada um dos contextos históricos mencionados. No Chile, uma massa de trabalhadores organizada ocupando e autogerindo fábricas, organizando a produção e distribuição dos reduzidos bens que circulavam apesar do embargo econômico gringo. Uma massa politizada e disposta a abrir caminho ao socialismo chileno pela via do argumento e das eleições democráticas. No Brasil, uma massa de trabalhadores e desempregados desorganizados, competindo para produzir e distribuir os fartos e diversificados bens que as empresas multinacionais despejam no polarizado mercado brasileiro. Uma massa despolitizada e disposta a abrir o caminho ao consumo de luxo pela via da bala. De um lado, uma massa salpicada de lideranças revolucionárias cheias de talentos e argumentos. De outro lado, uma massa salpicada de criminosos cheios de talentos e armas.
Imagine se no Chile de Allende as massas populares estivessem prontas para a guerra como estão as classes “perigosas” do Brasil contemporâneo. Nenhuma tentativa de golpe teria êxito. Os militares não ganhariam tanto espaço antes do bombardeio final, a coisa teria explodido antes, com outra correlação de forças. Um povo politizado e armado, estrategicamente disposto pelo território nacional teria resistido ao golpismo fascista. Nessa ocasião, setores do povo queriam armas para lutar, mas Allende seguia acreditando na via institucional para solucionar o problema, até que veio o golpe e nada mais podia ser feito. Se o povo estivesse armado teria defendido o governo constitucional da Unidade Popular com a própria vida e de uma maneira única, o que colocaria o processo revolucionário chileno em outro patamar.
Agora o contrário, imagine se no Brasil de Lula as massas populares tivessem a consciência política da classe trabalhadora chilena do início dos anos 70. Nenhuma privatização, nenhum abuso de poder, nenhuma especulação imobiliária, nenhum desmatamento teria êxito. O governo não teria tanta tranqüilidade para conduzir a economia tão subordinada ao imperialismo norte-americano, a coisa explodiria a cada tentativa de um burocrata saquear os cofres públicos com uma canetada. Seria também outra correlação de forças. Um povo politizado e armado, estrategicamente disposto pelo território nacional resistiria a cada ofensiva neoconservadora ou neoliberal do governo. No Brasil contemporâneo o povo vive imerso numa guerra sem sentido, guerreia cada dia por um prato de comida, por um tênis Nike, por um papel de cocaína, por uma boca de fumo. Muitas armas circulam pelas periferias das grandes cidades, mas nenhuma delas é empregada para solucionar os problemas da realidade brasileira. Nesse contexto se vive como se nada mais pudesse ser feito. Se o povo brasileiro estivesse consciente de seu poder e de seu rumo atacaria o governo constitucional do PT com a força da própria vida e de uma maneira única, o que colocaria o processo revolucionário brasileiro em outro patamar.
Desse exercício especulativo é possível sacar algumas conclusões dialéticas. Primeiro, que a institucionalidade democrática burguesa não pode ser um princípio inquestionável. Os próprios opressores internacionais que exaltam o bem comportado governo constitucional brasileiro são os que arquitetaram o Golpe de Estado chileno (e o nosso também). Por outro lado, a institucionalidade democrática não pode ser um princípio descartável. Os avanços da classe trabalhadora chilena no período da disputa eleitoral superam de longe as condições de trabalho e vida já atingidas até hoje no Brasil.
Em segundo lugar, a violência nunca pode ser descartada como um instrumento político. Os mesmos chilenos revolucionários que atuavam dentro da institucionalidade burguesa foram perseguidos, torturados e mortos na ditadura de Pinochet. Se não tivessem sido tão inocentes talvez tivessem alguma chance de vencer essa guerra. Por outro lado, nem toda violência pode ser vista como revolucionária. Roubar o relógio do apresentador playboy não é uma expropriação revolucionária. Seqüestrar, roubar ou mesmo encher um burguês de bala não contribui em nada para o avanço da classe oprimida em suas condições de vida e trabalho.
Agora o delírio final, um outro exercício anacrônico, mas não mais entre o passado e o presente, mas sim entre o presente e o futuro. Pense na atualidade brasileira, e no nosso continente daqui 32 anos. Agora cruze os distintos elementos de organização popular que caracterizariam cada um dos contextos históricos mencionados. O que você vê?



Compartilho de suas idéias, mas considero-as um pouco ingênuas e fantasiosas. Não acha que, tendo em vista a história do Chile, e de todos os outros países que tentaram implantar o socialismo, o viável, hoje, seria criar políticas públicas dentro do capitalismo e neoliberalismo, para diminuir as injustiças sociais sem pretender extingui-las? Acha que dispomos de armas suficientes para deter o exército americano e seus aliados, e para enfrentar os boicotes que nos seriam impostos, e as exportações que seríamos vetados de fazer??? Será que tudo isso não levaria o país a uma pobreza absurdamente maior? Talvez se toda a América Latina fosse um bloco uno…ou se a China voltasse a ser comunista…
Muito pertinente o comentário da companheira Nadya. Apenas discordaria da implantação de um programa moderado de políticas públicas dentro dos marcos do capitalismo e neoliberalismo. O que o Brasil precisa ao meu ver é de exatamente um programa de ruptura com o sistema político e econômico vigente com vistas a real extinção do abismo social que caracteriza a sociedade brasileira desde seu nascimento. Quanto ao tema das armas suficientes para enfrentar o imperialismo yanque eu evocaria a experiência cubana, que com um número reduzidissimo de armas realizou a revolução mais bonita da América Latina. Claro que a conjuntura é desfavorável, e q temos que acumular forças e aprimorar nossas estratégias de luta, mas jamais podemos nos resignar e atuar como se o poder dos Estados Unidos fosse inquebrantável.
Faço coro com os companheiros acima. Primeiro porque políticas públicas verdadeiras, ou seja, que implementem reformas reais como a diminuição da jornada de trabalho, defesa do transporte público gratuíto, alavancam situações realmente contraditórias com a lógica capitalista, e que podem, então ser motor de uma construção de oposição social ao capital. Ou seja, lutar dentro do Estado é uma necessidade.
Segundo porque superar a imposição da cultura de massas do império – inclusive a made in brasil – é fundamental, mas significa mais que criticar a estética vazia, a repetição de fórmulas feitas e o conteúdo ideológico imbutido. Significa lutar pela cultura popular, defendê-la e impulsioná-la.
No fim, é a criação de uma contra-hegemonia na organização social, que passa pela contra-hegemonia cultural.
Ademais, o que também está contido no texto, a luta pela formação política na sociedade civil, em ONGs de esquerda, nos sindicatos, nos institutos de pesquisa e apoio, nas associações de bairro e comunitárias, é fundamental para disputar a sociedade civil – termo vulgarizado pelo neoliberalismo, sob a forma do “terceiro setor” e que temos que resgatar na sua forma combativa, a de formulação do contra-senso, da mobilização, e mais importante, da construção de alternativas à naturalização das relações sociais capitalistas.