Grupos de Comunistas de Conselhos (Parte final)
Posted by Editorial do Outubro | Posted in Imperialismo | Posted on 29-11-2008
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Paul Mattick
V
De há algum tempo para cá tornou-se de bom tom atribuir as vicissitudes do antigo movimento operário a uma trágica contradição entre meios e fim. Ora, esta contradição, muito simplesmente, não existe. O socialismo não foi o «fim» sonhado pelo antigo movimento operário. Tratava-se de um termo empregado para esconder um objectivo totalmente diferente: a conquista do poder político no seio de uma sociedade dividida em dirigentes e dirigidos, a fim de obter uma parte da mais-valia. Este era o fim que determinava os meios.
O problema do fim e dos meios mais não é que o problema da ideologia e da realidade baseada em relações de classe. Mas o problema não é por isso menos falacioso, dado que apenas pode ser resolvido com a abolição daquelas relações. E nem sequer faz mais sentido quando limitado a uma exposição em termos intelectuais; de facto, semelhante contradição não existe em condições reais. O comportamento das classes c grupos sociais tem por base, qualquer que seja a época, as relações de produção. Quando este comportamento não corresponde ao fim que se afirma pretender, é unicamente porque na realidade não se está a lutar por esse fim mas, pelo contrário, o fim proposto exprime ou um descontentamento que não chega a traduzir-se em actos, ou um desejo de dissimular o fim real. Na verdade, nenhuma classe pode a longo prazo agir incorrectamente, isto é, em contradição com as forças sociais determinantes, se bem que seja verdade que pode pensar incorrectamente de mil e uma maneiras. No contexto da produção social capitalista cada classe depende das outras; há, por detrás do seu antagonismo, uma identidade de interesses e, enquanto esta sociedade subsistir, não existe livre escolha do modo de acção. Só cortando com este mesmo contexto se torna possível coordenar de forma consciente os fins e os meios, realizar uma autêntica unidade entre a teoria e a prática.
Assim, portanto, no contexto capitalista, a contradição entre fins e meios é apenas aparente e a distância que os separa oculta na verdade uma prática efectiva que não está de modo algum em ruptura com os desejos que se procuram satisfazer. Basta descobrir o fim realmente perseguido, mascarado pelo fim ideológico, e a aparente antinomia, desaparece. Eis um exemplo concreto: quem estiver convencido que os sindicatos, como eles próprios dizem, utilizam a greve com o fim de reduzir os lucros capitalistas e aumentar os salários dos trabalhadores, ficará surpreendido ao constatar que foi no preciso momento em que os sindicatos se encontravam no máximo da sua força ou em que a necessidade de elevação das taxas de salários era mais evidente, que lhes repugnava a greve para fazer valer as reivindicações operárias, preferindo recorrer a meios menos apropriados ao objectivo em vista, tais como a arbitragem e as recomendações governamentais. É um facto que os sindicatos já não têm corno objectivo obter por todos os meios aumentos de salários; houve uma mudança de fim e este agora é apenas o de salvaguardar a todo o custo o próprio aparelho. Os novos meios são os que convêm aos novos fins. Mas se a mudança de natureza se tornasse demasiado evidente, os trabalhadores não tardariam a desligar-se das organizações. Esta a razão pela qual o fim puramente ideológico se transforma num meio de atingir o objectivo real, um simples instrumento, num contexto de actividades que não podem ser nem mais realistas nem mais integradas.
Isto não impediu de modo algum que o problema do fim e dos meios apaixonasse o velho movimento operário, e esta é também uma das razões que retardaram a tomada de consciência da natureza real deste movimento, suscitando assim uma infinidade de ilusões quanto à possibilidade de o reformar. A revolução russa de 1905, que durante algum tempo pôs termo ao quotidiano «vai-vem» no qual o movimento operário se encontrava enleado e colocou, em termos concretos, a questão da transformação da sociedade, marcou a tentativa mais notável de conferir um carácter revolucionário ao antigo movimento operário. Mesmo aí, no entanto, a natureza essencialmente capitalista deste último não deixou de transparecer através de evidentes hesitações, para não dizer mais. Ê claro que Lenine procurou, sincera e activamente, resolver o problema do poder, mas ao agir deste modo entrou directamente no campo dos revolucionários burgueses. A causa disso foi não só o atraso da Rússia, mas também a evolução teórica do socialismo ocidental que mostrara claramente o carácter burguês que este herdara das revoluções anteriores. A natureza capitalista do movimento operário manifestou-se igualmente ao nível da sua teoria económica, onde, à semelhança da economia burguesa, os problemas da sociedade eram concebidos como questões de distribuição, problemas de mercado. Tal foi o caso mesmo da obra que Rosa Luxemburgo consagrou à Acumulação de capital e na qual, embora se lance a fundo num ataque contra os «revisionistas», permanece contudo no terreno do adversário. Na verdade, segundo a opinião de Rosa Luxemburgo, a principal barreira com que a economia capitalista depara é a sua incapacidade em realizar a mais-valia devido à relativa estreiteza do mercado. O que significava, portanto, conferir à esfera da distribuição, e não à espera da produção, a importância preponderante, determinando a vida e a morte do capitalismo.
No entanto, durante a guerra um novo movimento surgiu. Originava-se quer na Esquerda anterior a 14 (Luxemburgo, Liebknecht, Pannekoek, Gorter), quer na luta real dos operários e nas suas greves de massa, a Leste como a Oeste. Assim, durante alguns anos, uma tendência manifestamente anticapitalista exprimiu-se, no plano organizacional, em diversos grupos e não apenas na Alemanha. De início, e apesar de todas as suas inconsequências, este movimento tomou posição contra os métodos parlamentares e sindicais, opondo-se deste modo ao conjunto da sociedade capitalista e ao movimento operário que era parte integrante dela. Considerando que a tomada e exercício do poder por um partido não significavam senão uma mudança de explorador, sustentava que competia aos próprios operários gerirem directamente a produção e a sociedade. Desde então, as palavras de ordem do passado – abolição das classes, do salariato e da exploração capitalista – deixavam de constituir fórmulas vagas para se tornarem os objectivos imediatos das novas organizações. Estas visavam não a criação de uma elite dirigente aspirando a actuar «pelos operários», e esperando poder agir contra estes uma vez instalada no poder, mas a gestão directa, sem intermediários, dos meios de produção pêlos operários, através de uma organização da produção que lhes desse todas as possibilidades de controle. Estes grupos recusavam-se a reconhecer qualquer diferença entre os diversos partidos e sindicatos operários, nos quais viam vestígios de uma etapa do desenvolvimento já ultrapassada e limitada às lutas de certas categorias sociais no contexto do capitalismo. Em vez de procurarem a renovação das velhas organizações, sublinhavam a necessidade de outras com um carácter absolutamente novo: organizações de classe, capazes não só de virem a transformar a ordem existente, mas também de construírem a nova sociedade de modo a tornarem impossível a exploração.
O que hoje resta deste movimento – na medida em que tomou a forma de organizações permanentes – usa o nome de grupos comunistas de conselhos. Estes grupos reclamam-se do marxismo e, logo, do internacionalismo. Considerando que todos os problemas actuais são por definição problemas internacionais, recusam pensar em termos nacionalistas e sustentam que todas as considerações de tipo especificamente nacional estão directamente submetidas às necessidades da concorrência capitalista. Os operários devem, no seu próprio interesse, assegurar o desenvolvimento das forças de produção, o que pressupõe um internacionalismo rigoroso. No entanto, tudo isto não conduz à negação das particularidades nacionais e, portanto, ao procurar de uma política idêntica para todos os países. Cada grupo trabalha em função da idéia que faz do contexto nacional em que trabalha, sem que qualquer outro grupo lhe venha fixar uma linha de conduta. (Mas, em contrapartida, trocas de experiência devem permitir uma actividade coordenada sempre que seja possível). Estes grupos são marxistas porque nada existe ainda de superior à ciência social de que Marx lançou as bases e porque os princípios marxistas de análise social continuam a ser os mais realistas, sendo através deles possível compreender todas as novas experiências que o desenvolvimento do capitalismo não deixa de engendrar. Nesta perspectiva, o marxismo aparece não como um sistema fechado, mas como o estado actual de uma ciência da sociedade em evolução, e capaz de servir de instrumento teórico para a luta de classe prática dos operários.
Até agora, estes grupos têm tido uma função essencialmente crítica. Mas o objecto desta crítica mudou consideravelmente e não se trata tanto do capitalismo tal como existia na época de Marx, mas deste capitalismo transformado ao qual está ligado agora o nome de «socialismo». Hoje não é concebível outra actividade prática além da crítica e da propaganda e a sua aparente esterilidade reflecte apenas uma situação visivelmente não revolucionária. Só o antigo movimento operário pode considerar como uma perspectiva preocupante o seu declínio — que torna difícil, ou mesmo impossível, o desenvolvimento de um novo movimento. Os grupos comunistas de conselhos se não se alegram com este declínio, tão pouco o lamentam: é para eles um facto evidente. Sabem igualmente que o desaparecimento do antigo movimento operário organizado não muda em nada a estrutura de classes, que a lufa de classes deverá fatalmente continuar na base das possibilidades existentes. Como dizia Marx: «Desde que uma classe que concentra em si os interesses revolucionários de uma sociedade se subleva, ela encontra imediatamente na sua própria situação o conteúdo e a matéria da sua actividade revolucionária: destruir os seus inimigos, tomar as medidas impostas pelas necessidades da luta, e serão as consequências dos próprios actos que a levarão mais longe. Esta classe não se entregará a nenhuma investigação teórica sobre a sua missão» (8).
Uma sociedade fascista tão pouco poderia acabar com a luta das classes: os operários fascistas serão obrigados a transformar as relações de produção. No entanto, hoje nada existe de semelhante quer a uma sociedade fascista, quer a uma sociedade democrática. Tratam-se de estádios diferentes de uma mesma sociedade, nem inferiores nem superiores, mas apenas diferentes, e que provêm de transformações ocorridas nas forças de classe na sociedade capitalista, as quais resultam por sua vez de um certo número de contradições económicas.
Os grupos comunistas de conselhos não escondem o facto de nenhuma mudança social ser possível nas actuais condições, salvo se as forças anticapitalistas adquirirem um poderio superior às adversas e de ser impossível a estas forças organizarem-se no contexto das relações capitalistas. Apoiando-se numa análise da actual sociedade e num estudo das anteriores lutas de classe, sustentam que a acção espontânea das massas descontentes e o processo de rebelião a desenvolver sobre esta base engendrará conseqüentemente as suas próprias organizações e que apenas estas, directamente saídas das condições sociais, poderão abater o edifício social existente. Segundo aqueles, é inútil discutir o problema da organização nos termos em que hoje é feito, dado que as fábricas, os trabalhos públicos, os departamentos de beneficência, os exércitos da guerra eminente, são outras tantas organizações que jamais serão eliminadas, seja qual for a forma que a sociedade capitalista assuma. No que diz respeito ao quadro organizativo da nova sociedade, aqueles grupos colocam em primeiro plano a idéia da organização de conselhos, tendo por base a indústria e o processo de produção, e a adopção do tempo de trabalho médio como instrumento de medida da produção, visto que tal se torna necessário para garantia de uma igualdade económica num contexto de divisão de trabalho como o actual. Esta sociedade, segundo a convicção destes grupos, estará à altura de planificar a produção consoante as necessidades e os desejos da população laboriosa.
Por outro lado, os comunistas de conselhos afirmam – como já foi dito – que uma sociedade nova só pode funcionar numa base de participação directa dos trabalhadores em todas as decisões; a concepção que têm de socialismo é irrealizável numa base inversa, a da separação entre operários e organizadores. Longe de pretenderem agir para os operários, consideram-se como membros da classe operária que tomaram consciência da tendência do capitalismo para o declínio e procuram assim coordenar as actividades dos trabalhadores. Igualmente estão conscientes de que não constituem mais do que grupos de propaganda, capazes certamente de propor vias e meios de acção, mas de modo algum de as realizarem «no interesse da classe». Ou seja: é à própria classe que competirá pô-las em prática. Num certo sentido, as funções dos grupos ligam-se às suas perspectivas mas presentemente, os grupos procuram fundar-se unicamente nas necessidades dos trabalhadores de hoje. Esforçam-se constantemente por estimular iniciativas e acções autónomas dos operários. Desde que haja oportunidade, participam em qualquer actividade da população trabalhadora, não com um programa distinto do desta mas antes adoptando o dela e fazendo o possível por desenvolver a participação dos trabalhadores em todas as decisões. Pela teoria e pela prática demonstram que o movimento operário deve preocupar-se exclusivamente com os seus próprios interesses; que não há que tratar a sociedade como uma totalidade, dado que na verdade a sociedade apenas será uma totalidade no dia em que as classes houverem desaparecido; que os operários, não tendo em vista somente os seus interesses mais imediatos, devem combater, e efectivamente combatem, todas as outras classes e os objectivos da sociedade de exploração; que não agirão enquanto as acções desenvolvidas os ajudarem nos planos económico e social mas que isto somente é possível na condição de agirem para e por si próprios; que é desde hoje que devem resolver os seus problemas e prepararem deste modo a resolução de outros ainda maiores, os problemas de amanhã.























