Escrito por Plínio de Arruda Sampaio Jr.
28-Out-2008
A crise financeira que eclodiu com a intensidade de um furacão tropical
nas últimas semanas gerou um estado de absoluta incerteza em relação ao
futuro da ordem global. A desconfiança na solidez das instituições
financeiras, provocada pela quebra em cadeia de bancos que até há pouco
pareciam inabaláveis, desencadeou um colapso generalizado do crédito que
tende a desorganizar o sistema capitalista mundial. Ao expor a
extraordinária fragilidade do sistema monetário internacional e os
precários fundamentos que sustentam a globalização dos negócios, a crise
pôs por terra os parâmetros que balizavam os cálculos capitalistas,
deixando o mundo sob a ameaça de uma depressão sem precedentes.
A origem dos problemas encontra-se no processo de liberalização que
solapou as restrições institucionais que impunham limites à atuação do
capital financeiro, com o objetivo de minimizar os impactos perversos da
livre concorrência sobre a economia popular. Ao levar ao paroxismo a
liberdade de movimento dos capitais e a desregulamentação dos mercados
financeiros, os Estados Unidos e os organismos financeiros
internacionais criaram condições ideais para o pleno desenvolvimento da
especulação produtiva e financeira em escala global.
O neoliberalismo premiou os especuladores mais ousados, desencadeando
uma concorrência desenfreada pelo lucro fácil que só poderia terminar em
catástrofe. O resultado era previsível: a valorização do capital
fictício descolou-se completamente da valorização produtiva e a
acumulação produtiva descolou-se completamente da capacidade de consumo
da sociedade. Em poucas palavras, o mundo encontra-se diante de uma
clássica crise de superprodução, cuja solução demandará uma brutal
queima de capital, produtivo e financeiro, com tudo o que vem junto:
desemprego, crise social e instabilidade política.
Em relação às inúmeras turbulências que marcaram a conturbada trajetória
das finanças internacionais na era neoliberal, há pelo menos duas
mudanças significativas no caráter da crise atual, ambas convergindo
para a configuração de uma crise geral – um fenômeno estrutural que terá
repercussões de longo alcance.
Em primeiro lugar, a profundidade e a extensão dos desequilíbrios que
precisam ser digeridos superam as crises anteriores em todas as suas
dimensões e só são comparáveis à hecatombe que desarticulou o sistema
monetário internacional nos anos 30. Como todas as economias nacionais
estão fortemente interconectadas entre si e fortemente dependentes do
que ocorre na economia norte-americana, não há como conter o processo de
disseminação da crise sem subverter os alicerces da ordem econômica
internacional montada nas últimas quatro décadas, sob a batuta dos
próprios Estados Unidos.
Em segundo lugar, a impotência do poder político para lidar com a
situação não permite que se vislumbre uma solução rápida e indolor para
o impasse da economia mundial. A superação dos entraves que bloqueiam a
acumulação de capital exige uma ação coordenada, de caráter
transnacional, envolvendo todas as dimensões da vida econômica -
financeira, monetária, comercial e produtiva -, cuja possibilidade de
concretização, até o momento, sequer foi cogitada. Os Estados Unidos,
que deveriam liderar este processo, têm se revelado totalmente
impotentes para enfrentar a situação e não há o menor indício de que
alguma outra potência imperialista possa assumir o seu papel.
Enganam-se os que imaginam que a recente atuação conjunta dos governos
dos países desenvolvidos para salvar os bancos seja um sintoma de que o
poder público começa a sair da inércia. Por enquanto os Estados têm se
restringido a uma atuação reativa, sempre atrás dos acontecimentos,
comandada pela histeria desesperada dos “mercados” – eufemismo para
designar os interesses do capital financeiro.
Não é impossível que o esforço para “administrar” a crise protele o
desmoronamento dos mercados financeiros por mais algum tempo, dando para
muitos a impressão de que os problemas poderão ser contornados sem
maiores traumatismos. Ainda que a possibilidade de um colapso
espetacular do sistema monetário internacional não possa ser descartada,
o mais provável é que o desdobramento da crise se arraste por tempo
indefinido, alternando momentos de pânico com momentos de relativo
alívio, numa lenta agonia.
O fato é que a economia mundial está a léguas de qualquer tipo de ação
“reguladora”, capaz de pôr ordem na anarquia da iniciativa privada e de
conter o caráter ultra-regressivo do padrão de acumulação neoliberal –
as causas últimas da crise. Os que confundem a estatização do sistema
financeiro em curso com a volta da regulação de tipo keynesiana tomam a
nuvem por Juno, pois não é o Estado que está comandando o capital, mas
exatamente o contrário, o grande capital que está comandando o Estado.
Em nome da necessidade inquestionável de evitar uma crise sistêmica da
economia mundial, de efeitos potenciais catastróficos, a ação dos
Estados capitalistas está promovendo o maior ataque à economia popular
de que se tem notícia na história. Os recursos que até ontem faltavam
para financiar as políticas públicas, agora sobram para socorrer os
bancos, sem que nada garanta, diga-se de passagem, que o cataclismo seja
evitado. Para se aquilatar a magnitude de riqueza transferida para o
grande capital, basta lembrar que, no intervalo de poucas semanas, os
maiores bancos do mundo receberam um montante de recursos públicos
equivalente a vários PIBs anuais do Brasil.
Além da ausência de uma potência hegemônica em condições de liderar a
reorganização do sistema capitalista mundial, a crise atual apresenta
outra importante diferença em relação ao contexto histórico da crise do
liberalismo que marcou toda a primeira metade do século XX. A complexa
teia de relações comerciais e produtivas que unifica o sistema
capitalista mundial bloqueia a possibilidade de soluções “nacionais”
para a crise global.
Iludem-se, portanto, aqueles que apostam na eventualidade de um retorno
a Keynes. As bases objetivas e subjetivas que davam sustentação ao
arcabouço de política econômica baseado em um regime central de
acumulação encontram-se pura e simplesmente corroídas. O grau de
socialização das forças produtivas já alcançado pelo desenvolvimento
capitalista não comporta a possibilidade de um recuo “nacional”, pois
isto implicaria grande perda de eficiência econômica (devido à menor
economia de escala), representando uma inusitada regressão na divisão
social do trabalho. Além disso, o controle absoluto do Estado
capitalista pelos grandes conglomerados internacionais torna muito pouco
provável a possibilidade de um recuo protecionista, pois o grau de
internacionalização do capital é incompatível com o espaço econômico
nacional como horizonte de sua reprodução ampliada.
Sabe-se pela tumultuada história do capitalismo que, enquanto não houver
uma alternativa a este regime, de uma ou de outra maneira, mais tempo
menos tempo, com maior ou menor sacrifício, as condições para a retomada
da acumulação de capital serão restauradas um dia. Qualquer que seja o
caminho para a superação da crise, uma coisa é certa. Na ausência de
forças capazes de deter a fúria especulativa do grande capital, o
capitalismo tende a ficar ainda mais regressivo e predatório, pois é
gigantesco o volume de capital sobreacumulado que precisa ser digerido
antes que as condições para a reprodução ampliada do capital sejam
restabelecidas. E, pelas tendências em curso, tudo se encaminha para uma
socialização dos prejuízos sem precedentes em escala global. No caso da
crise do liberalismo, que desarticulou a divisão internacional do
trabalho que gravitava em torno da economia inglesa, o mundo teve de
passar por duas guerras mundiais, duas revoluções socialistas e uma
depressão de longa duração antes que o sistema capitalista mundial fosse
reorganizado – um processo que durou cerca de meio século.
Ao contrário do que ocorreu nas inúmeras turbulências que marcaram a era
neoliberal, desta vez a população norte-americana não será poupada de
sacrifícios. Instigados pela ortodoxia neoliberal e pela grande /mídia/
a acreditarem que o mundo havia entrado em uma era de prosperidade sem
fim, trabalhadores e aposentados apostaram suas poupanças suadas – e
muitos endividaram além de suas posses – na esperança de ganhos
patrimoniais meteóricos. Os que não pularam fora da ciranda especulativa
a tempo, acabaram com o mico na mão e, agora, se encontram na iminência
de ficarem sem casa, sem aposentadoria e sem emprego. É bem pouco
provável que aceitem a nova situação docilmente.
Elo fraco do sistema capitalista mundial e zona de influência dos
Estados Unidos, a América Latina sentirá o impacto da crise de maneira
redobrada. A crise será transmitida pelos processos históricos
tradicionais – queda do comércio internacional, contração dos preços das
/commodities/, paralisia dos fluxos de crédito e investimentos, fuga de
capitais, crises fiscais e financeiras, forte instabilidade da moeda -
bem como por processos novos -, paralisação do fluxo de remessas dos
imigrantes, exacerbação dos obstáculos das economias desenvolvidas à
imigração, intensificação do racismo contra os povos do chamado terceiro
mundo, inversão do fluxo de imigrações. Se não houver uma pronta reação
dos países da região, centralizando o câmbio e desatrelando o sistema de
financiamento interno do mercado financeiro internacional, os efeitos
serão fulminantes.
A forma imediata assumida pela crise não deve destoar do padrão
conhecido, combinando estrangulamento cambial, desorganização das
finanças, instabilidade monetária, estagnação econômica, quebra de
empresas e ampliação do desemprego. Instaurado o caos econômico, as
pressões do imperialismo para despejar o ônus da crise nas economias da
região serão cada vez maiores. Ao encerrar o efêmero ciclo de
crescimento que tinha interrompido três décadas de estagnação, a ordem
econômica internacional recolocará toda a periferia latino-americana na
rotina de Sísifo do ajuste econômico permanente. O novo marco histórico
tende a acelerar o processo de reversão neocolonial em curso.
A crise do ciclo expansivo neoliberal aprofundará a barbárie
capitalista. Abre-se um período de grandes convulsões sociais e
acirramento das rivalidades entre os Estados nacionais. Nos marcos da
ordem burguesa, o futuro é sombrio. Mais do que nunca, o regime do
capital virá acompanhado de crescente instabilidade econômica, absoluta
irracionalidade na utilização da riqueza, gritantes desigualdades
sociais, escalada da prepotência imperialista e inexorável
comprometimento da democracia.


*Plínio de Arruda Sampaio Jr., economista, é professor do Instituto de
Economia da UNICAMP.*
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