GRUPOS DE COMUNISTAS DE CONSELHOS

Apresentamos aqui a primeira parte de um artigo de Paul Mattick, intelectual orgânico do movimento operário alemão na década de 30 e 40. O texto é de 1939 e naquela época já dava porrada na esquerda ortodoxa. Talvez nos sirva como inspiração…

Segundo Douglas Anfra, do www.marxists.org: “um texto interessante de Paul Mattick a respeito do pensamento político que caracterizava os grupos de comunistas de conselhos, do qual foi um dos principais represetantes em sua fase mais combativa nos conselhos de soldados e operários da Alemanha. Comunismo de Conselhos é uma corrente política marxista que teve sua origem nos anos 1920 na Alemanha e Holanda e foi representada por Anton Pannekoek, Herman Gorter, Otto Rühle, Karl Korsch, Paul Mattick, entre outros. Esta tendência surge no interior do movimento revolucionário do início do século XX, em contraposição tanto ao revisionismo da social-democracia quanto ao bolchevismo de Lênin e dos bolcheviques russos e seus partidários no resto do mundo. O comunismo de conselhos tem como antecessor o luxemburguismo, fundado nas teses e práticas de Rosa Luxemburgo, comunista radical alemã que foi a primeira a realizar a crítica aos líderes revisionistas do Partido Social-Democrata Alemão, Eduard Bernstein e Karl Kautsky e a Lênin.”

Paul Mattick

Título original: «Groups of Council Communists», The Social Frontier, V, Maio de 1939, n° 45, pp. 248-253

Uma coisa é certa: a força social a que se convencionou chamar «movimento operário» e que, depois de um século de desenvolvimento contínuo, teve o seu apogeu (quantitativo) nas vésperas e no período que se seguiu à última guerra, conhece agora um declínio indiscutível. Ainda que de bom ou mau grado o facto seja admitido por quem quer que se interesse pela questão, raras são as interpretações realistas do fenómeno. Tratando-se de casos em que o movimento foi destruído por causas que lhe eram exteriores, resta saber a razão porque assim foi eliminado, apesar do poder aparente que adquirira no decurso do seu longo período de desenvolvimento. E nos casos em que se tenha desagregado por causas internas, falta compreender a razão pela qual um novo movimento não surgiu, quando as condições sociais de molde a engendrar movimentos deste género subsistiam ainda.

I

A maior parte das interpretações hoje propostas não são convincentes porque – mesmo sem falarmos de conhecimentos teóricos e empíricos muitas vezes limitados – têm por único objectivo justificar tomadas de posição particulares, simultaneamente específicas e imediatas. Mas se è já deplorável fazer um julgamento falso ou inadequado das causas do impasse em que actualmente o movimento se encontra, é ainda mais infrutífero traçar uma perspectiva tendo por finalidade a constituição de um novo movimento de classe independente. Os projectos destinados a provocar a ressurreição do movimento abundam mas, vistos mais de perto, aperceber-nos-emos que todos esses belos planos de «renovação» mais não fazem que retomar idéia e redescobrir formas de actividades concebidas, com uma nitidez e clareza diferentes, na época respeitante ao início do movimento operário moderno. Para refutar a ilusão segundo a qual os princípios assim desenterrados – e que em comparação com o actual curso das coisas parecem radicais – podem ser passados à prática com utilidade, é necessário considerar não só que estes princípios, ligados como estão a uma determinada fase do desenvolvimento da sociedade capitalista, perderam obrigatoriamente a sua validade, mas também que já não convêm a um movimento cuja filosofia, formas de organização e actividades tiveram por base, durante demasiado tempo e com excessivo sucesso, as aspirações mais opostas à substância dos seus princípios originais.

Nada seria mais vão do que esperar uma ressurreição do antigo movimento operário. E o que é mais importante, um eventual «novo» movimento ver-se-á desde logo obrigado a romper com as próprias práticas às quais o antigo devia a sua força. Ser-lhe-á necessário evitar a obtenção do mesmo tipo de vitórias. Em vez de aspirar a uma forma de organização simplesmente «melhor» que a anterior, deverá antes perceber todas as implicações que comporta o actual estádio de desenvolvimento do sistema capitalista, organizar-se consequentemente e fundamentar a sua acção não nas idéias tradicionais mas sobre as possibilidades e necessidades da situação actual. Nas actuais circunstâncias, voltar aos ideais do passado só pode vir a significar uma coisa: o suicídio do movimento operário. Não basta constatar que a fraqueza dos dirigentes das organizações operárias e dos seus subordinados esteve na origem das múltiplas derrotas sofridas quando dos recentes conflitos com as classes dirigentes e que foi igualmente ela quem decidiu da sorte da «greve geral» em França. É preciso ver também, e principalmente, que o movimento operário hoje é incapaz de ir contra as exigências capitalistas, que, de um modo ou de outro, já só pode servir os interesses específicos, historicamente determinados, do capitalismo.

Sem insistir mais no caso destas organizações e quadros «operários», que logo de início consideraram a sua função como um meio, e nada mais, de cobrarem um tributo sobre as riquezas criadas pêlos trabalhadores graças aos arranjinhos e ao gangsterismo puro e simples ou ainda através da organização do mercado do trabalho, um facto é evidente: hoje, tanto os dirigentes do movimento como os próprios operários têm mais ou menos consciência da sua inaptidão para defrontarem o capitalismo, e o cinismo de que muitos dirigentes fazem prova logo que têm oportunidade, indo então até «empenhar os móveis», pode, ser tomado igualmente como a atitude mais realista, visto que ditada por uma exacta percepção da mudança da situação.

O sentimento de impotência, predominante na hora actual no seio do movimento, não será dissipado por uma onda de fraseologia incendiária e tão pouco por uma submissão incondicional às classes dominantes, como a que se prepara nos países onde os dirigentes operários reclamam uma «planificação nacional» e sonham resolver a questão social no contexto das relações de produção existentes. Assim, o antigo movimento operário mais não faz do que copiar as vagas proposições das formações fascistas mas, na sua qualidade de imitador, obtém muito menos sucesso do que aquelas. Tão pouco, ao adoptar os métodos e objectivos destas últimas, evitará o triunfo do seu inimigo e a sua própria eliminação.

CONTINUA…

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