Estratégias de dominação e mapas de construção da hegemonia mundial (Parte 1)
Posted by Editorial do Outubro | Posted in Contra ou Cultura!!!, Imperialismo, política institucional | Posted on 27-01-2009
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* Ana Esther Ceceña
Tradução: Maria Lúcia Badejo
… nossa dificuldade para encontrar as formas de luta adequadas não
provém de que ainda ignoramos em que consiste o poder?
… o poder é a guerra, a guerra continuada com outros meios …
Michel Foucault
O mundo capitalista, sua expansão e seus limites são construídos sobre a base da concorrência. A concorrência e o incremento constante do lucro, a luta pelo poder, a apropriação ilimitada de recursos de todos os tipos e a confrontação permanente de horizontes políticos e civilizatórios é o motor que estimula o desenvolvimento incessante das forças produtivas e de todos os mecanismos que contribuem para fixar as regras e margens do jogo do poder e para entrar na arena em condições de ganhador. Neste sentido, é da concorrência e desta situação consubstancial de conflito que
emergem as possibilidades, conteúdos e alcances da conformação do sistema mundial e de seus espaços de vulnerabilidade.
Trata-se, sem dúvida, de um processo social que, como reconhece experimentadamente George Soros, está longe de responder a leis naturais de comportamento, e no qual os sujeitos (as classes, os grupos, os povos) são os que constroem a história. Uma história marcada pelo conflito, plena
de contradições e na qual o poder é simultaneamente combatido e disputado e tem que ser reconquistado e redesenhado dia após dia.
A história é uma construção social, é cenário de atuação, dissipação e reconformação de sujeitos e, entre estes, sem dúvida, o sujeito mais organizado, com maior coerência e mecanismos de sustentabilidade no mundo contemporâneo é o da alta burguesia assentada nos Estados Unidos.
Esta burguesia, a mais globalizada de todas, soube construir um Estado capaz de expressar seus interesses e ideologia particulares como da sociedade em seu conjunto, não só nacional mas mundial, e fazê-los valer utilizando todos os elementos a seu alcance: militares, tecnológicos,
financeiros, diplomáticos e culturais. As formas de representação deste poderoso sujeito histórico variam e sua prática social de domínio e acumulação de poder se expressam de maneira diversa, de acordo com seus planos de atuação e com o conjunto dinâmico de elementos que compõem a complexidade concreta em que se joga a capacidade hegemônica global.
A hegemonia é, em todos os terrenos, a busca principal e o emblema da vitória. Em uma sociedade regida pela concorrência e o conflito, o triunfo próprio e a derrota do adversário constituem seu ethos e o elemento ordenador das relações sociais. Se a aproximação à análise do sistema
mundial se faz a partir dos sujeitos em conflito e não de suas expressões coisificadas, é possível perceber o problema da concorrência como um campo de batalha no qual a posição e as estratégias empregadas são os elementos de definição de resultados.
A Hegemonia e seus planos de construção
A hegemonia é uma categoria complexa, que articula a capacidade de liderança nas diferentes dimensões da vida social. O hegêmone, ou líder, que neste caso é necessariamente um sujeito coletivo, tem que ser capaz de dirigir pela força e pela razão, por convicção e por imposição. Ou seja, a hegemonia emerge de um reconhecimento coletivo que compreende tanto qualidades e preceitos morais que adquirem estatuto universal como a energia ou força para sancionar seu cumprimento.
Gramsci, preocupado não tanto com a relação entre estados, mas com a organização da classe operária e sua capacidade para formular uma interpretação do mundo que transcendesse a da burguesia, define-a justamente como a capacidade para transformar a concepção própria,
particular, em verdade universal, seja porque as condições materiais que a geraram e a ação do sujeito coletivo que a sustenta conseguem construir amplos consensos, seja porque todos os mecanismos de correção social e estabelecimento de normatividades afins a esta concepção do mundo se impõem como essência moral e valores compartilhados, mediante o recurso
à violência em todas as suas formas, justificando, assim, a sanção à dissidência em qualquer um dos campos da vida social.
A hegemonia é mais uma construção de imaginários que, em conseqüência, leva à reorganização das práticas sociais, mas a construção de imaginários não é uma externalidade do sistema social, e sim seu produto mais profundo. “A hegemonia nasce da fábrica e para execer-se só tem necessidade de uma mínima quantidade de intermediários profissionais da política e da ideologia”. Para Gramsci a essência da concepção do mundo está na vida cotidiana, na relação concreta e específica dos trabalhadores italianos com o mundo, relação que começa por seu espaço de socialização
fundamental: a fábrica. Ou seja, a concepção do mundo não é imposta por Leviatan, este contribui para forjá-la garantindo o cumprimento das normas morais reconhecidas coletivamente (ainda que por um coletivo contraditório), mas a realidade imediata do trabalhador é a que traça seus horizontes de compreensão e de possibilidade.
A hegemonia só é possível mediante um compromisso estabelecido coletivamente que leva a avalizar e compartilhar as regras de um jogo que, se não oferece perspectivas de ganhar, pelo menos não atenta contra a coesão social; a governabilidade está garantida sempre e quando se jogue, sem mudar as normas, mesmo sabendo que o jogo não nos pertence, ainda que nos inclua.
A hegemonia entendida assim, como reconhecimento de uma ordem social natural ou inapelável, mediante a incorporação de seus valores como universais e produto do compromisso coletivo, requer uma construção simultânea em vários planos:
- militar, criando as condições reais e imaginárias de invencibilidade;
- econômico, constituindo-se em paradigma de referência e em sancionador, em última instância;
- político, colocando-se como fazedor e árbitro das decisões mundiais;
- cultural, fazendo da própria concepção do mundo e seus valores a perspectiva civilizatória reconhecida universalmente.
Para os generais do Departamento de Defesa (DoD) dos Estados Unidos, cujo saber está orientado pela eficiência prática, a hegemonia se apresenta como objetivo inapelável e sua busca circunscreve-se ao projeto das melhores estratégias para assegura-la. Sua missão consiste em defender os interesses nacionais dos Estados Unidos em qualquer circunstância e
qualquer parte da geografia mundial. A hegemonia, neste caso, definida diretamente como dominação ou liberdade para pôr e dispor aos quatro cantos do horizonte, é um pressuposto que antecede a formulação de sua política.
“A manutenção da força militar e a capacidade de usa-la em defesa dos interesses da nação e do povo é essencial para a estratégia e compromisso com o que os Estados Unidos se aproximam do século XXI (…) Como a única nação no mundo que tem a capacidade para projetar um poderio militar de envergadura planetária para conduzir com efetividade operações militares de grande escala longe de suas fronteiras, os Estados Unidos têm uma posição única (…) Para manter esta posição de liderança, os Estados Unidos devem contar com forças rápidas e versáteis, capazes de enfrentar um amplo espectro de atividades e operações militares: desde a dissuasão e derrota de agressões em grande escala até a participação em contingências de pequena escala e o enfrentamento de ameaças assimétricas, como o terrorismo.”
Os interesses vitais dos Estados Unidos, em torno dos quais se organiza toda a atividade do DoD, compreendem:
- proteger a soberania, o território e a população dos Estados Unidos;
- evitar a emergência de hegêmones ou coalizões regionais hostis;
- assegurar o acesso incondicional aos mercados decisivos, ao fornecimento de energia e aos recursos estratégicos;
- dissuadir e, se necessário, derrotar qualquer agressão contra os Estados Unidos ou seus aliados;
- garantir a liberdade dos mares, vias de tráfego aéreo e espacial e a segurança das linhas vitais de comunicação.
CONTINUA…






