Ana Esther Ceceña
As dimensões do cenário
O cenário em que é dirimida a hegemonia mundial modificou-se substancialmente com dois acontecimentos paradigmáticos, cada um dos quais com implicações e seqüelas de diferente caráter: A derrota na guerra do Vietnã, que provocou indiretamente uma crise de superprodução no setor militar e a urgência de racionalizar os enormes recursos empregados em uma aventura malograda. A ruptura do mundo socialista, que provocou a repentina ampliação de territórios a ser controlados e incorporados.
O primeiro acontecimento acelerou a crise do fordismo ou da produção em massa desenvolvida sob os auspícios da escalada bélica e provocou uma profunda reestruturação nos processos de produção, que, em muitos momentos, abriu espaços de vulnerabilidade em áreas de definição tecnológica estratégica dos Estados Unidos e levou a um reposicionamento importante da Europa e da Ásia no novo cenário da valorização do capital.
Entretanto, como veremos mais adiante, o jogo estratégico da burguesia assentada nos Estados Unidos terminou por recompor as condições de superioridade e liderança dos Estados Unidos na fixação do paradigma tecnológico e no controle dos recursos e dos territórios estratégicos. O segundo acontecimento é resultado da guerra fria e, sem dúvida, uma conquista da força global articulada pelos Estados Unidos. A grande porção geográfica que representam esses territórios, o enorme número e amplo espectro de qualificações dos trabalhadores potenciais que aportam e as jazidas de petróleo, urânio e do resto dos minerais e outros recursos essenciais que contêm converte-os em um campo estratégico de disputa pelo poder econômico mundial. A ruptura do ex-mundo socialista significa uma modificação de possibilidades relativas dos principais atores do jogo do poder, mas o risco político que ainda compreende, sua parcial ingovernabilidade e a incógnita acerca dos conflitos ativos que abriga
impedem vislumbrar claramente o futuro de sua incorporação no acordo mundial.
As enormes riquezas naturais dessa região, que constituíam um dos elementos de contenção ao poder concentrado pelos Estados Unidos, ainda não são claramente vertidas sobre o mercado mundial, ainda que, efetivamente, sua fragmentação já não autorize a considerá-los como contrapeso. O mesmo ocorre ao ficar desarticulado o grande potencial bélico, científico e tecnológico desenvolvido pelo bloco socialista e que, em boa medida, está representado por seus cientistas ou pelos especialistas de diferentes tipos concentrados em seus sistemas de segurança (os criptógrafos da KGB, por exemplo). Isto justifica o interesse particular que concedem as estratégias de segurança nacional dos Estados Unidos à estabilidade política e à defesa das “causas da democracia” nesta região. O cenário global de que dispõe o sistema mundial capitalista ampliou-se notavelmente. Entretanto, incrementou a incerteza e modificou seus elementos de risco: passou-se do risco controlado ou calculado ao imprescindível. A grande tecnologia bélica e a superioridade em efetivos treinados que foram postos em ação no Vietnã não puderam vencer o exército do povo, que, ainda que tenha lutado na guerra, era composto de civis sem disciplina nem treinamento bélico; foi uma guerra de resistência, não-convencional nem com normatividades preconcebidas, como as que ameaçam repetir-se, no futuro próximo, em versões tão variadas como as do mosaico cultural que subjaz à edificação capitalista simbolizada pelo pensamento único. Por outro lado, há um deslocamento difuso de um conjunto de “poderes” locais que desdobram ou questionam as
organizações nacional-estatais militarizadas (aberta ou encobertamente),
provocando uma relativa indefinição societal e a ruptura de normas estabelecidas; máfias, drogas, saques e um conjunto de forças desgovernadas que não reconhecem autoridade e funcionam com lógicas inesperadas tomaram o lugar do inimigo ordenado e previsível ou do aliado incondicional capaz de manter o controle social em sua jurisdição.
Efetivamente, o horizonte ampliou-se, mas seu controle se fez mais difuso.
Nem o maior hegêmone, constituído agora como poder global, é capaz de dominar todas as forças sociais organizadas ou descontroladas que o formam. Neste contexto, o projeto de estratégias e o próprio pensamento estratégico são colocados em um lugar central dentro da organização da dominação e da concorrência. Isto repercute na totalidade militarista que foram adquirindo as relações mundiais, e que tem evidentes e profusas manifestações na vida cotidiana e na criação de imaginários, e explica por que a teoria e a práxis militares foram comendo os espaços de expressão do político.

Formas de representação do sujeito hegemônico
A discussão em torno das formas que assume a representação da classe ou de uma de suas partes, como expressão visível de uma concepção do mundo que corresponde ao imaginário criado pelo exercício cotidiano do poder, é muito ampla. O Estado, como espaço de síntese das contradições e dinâmicas sociais, não é nem pode ser concebido de maneira simplista como o instrumento da classe dominante, ainda que, de acordo com Michel Foucault, “…poder é essencialmente o que reprime”. O Estado efetivamente representa os interesses e concepções dominantes da sociedade que lhe dá sustentação, mas não constitui sua expressão direta. O Estado é um espaço de mediação e é nessa medida que pode constituir-se em representação coletiva do imaginário social, construído sobre a base de relações de poder e de dominação entre as classes e grupos. O Estado é expressão das relações hegemônicas dentro do universo social que o constitui, sem perder a dimensão de suas contradições.
Sem entrar mais no terreno de uma discussão que exige uma reflexão à parte, o estudo da economia mundial, das relações mundiais de dominação e da construção da hegemonia nesse mesmo nível tem como um de seus referenciais fundamentais o Estado norte-americano. Este, efetivamente, aparece como o articulador e cabeça do capitalismo mundial, e como portador e avalista dos valores que, sendo-lhe próprios, são apresentados e resguardados como universais. O norte-americano, até agora, é o único Estado que tem a possibilidade real de ser representante, globalmente, de um poder também global, que emerge, entre outros, da escala planetária alcançada por seus processos econômicos, militares e, em certa medida, culturais.
Entretanto, esse poder global, no âmbito econômico (produtivo, tecnológico, comercial, financeiro) é produto da práxis capitalista da alta burguesia. O protagonista direto do processo de transnacionalização da economia é essa parte da classe dominante que se passou a chamar grande capital, termo que a identifica, mas que evita sua significação como sujeito. A alta burguesia transnacional assentada nos Estados Unidos, à qual chamaremos alta burguesia norte-americana para abreviar (ainda que este termo requeira múltiplas precisões), é a portadora do emblema paradigmático do sistema mundial de produção, entendido em seu sentido mais amplo. Dentro do imaginário mundial, mesmo considerando o reconhecimento da liderança parcial de seus concorrentes-sócios, os símbolos do paradigma dominante continuam sendo erguidos pela IBM, Intel, Microsoft, Internet, Novartis, Monsanto, General Motors, Crysler, Exxon, Texaco, AT&T, ITT, Hughes, e tantos outros, como Coca-Cola e Sabritas, contribuem para definir os referenciais da vida e da reprodução social.
O trajeto entre o estabelecimento de lideranças e a construção de um reconhecimento geral de superioridade e direção só é possível mediante a conformação de um sujeito com múltiplas formas de representação articulada. O sujeito dominante do processo geral de reprodução ou do sistema capitalista mundial é constituído pela alta burguesia norteamericana que aparece sob a forma das grandes empresas transnacionais, dos volumosos fluxos de capital financeiro que vão fazendo e desfazendo economias e do Estado norte-americano, como portador do interesse geral e dos valores universais. Ou seja, o sujeito social dominante é um sujeito que se desdobra e que aparece, em nossa perspectiva, sob duas formas fundamentais: a do Estado norte-americano e a das grandes empresas transnacionais de base norte-americana. Por isso, as estratégias parciais de domínio e concorrência nos mercados, e a política do Estado no terreno da segurança nacional, mantêm uma coerência impecável em linhas gerais.