Andréia Marques
Acompanhamos nos últimos meses, a evolução de uma crise econômica de dimensão planetária, e, devido à atonia e imprecisão da grande imprensa e das mídias relacionadas ao tema, tentaremos aqui, elucidar alguns pontos que consideramos de fundamental importância para reflexão sobre as causas e desdobramentos da atual crise.
Na contramão do que se apregoa entre economistas, governo, técnicos de mercado e demais agentes da (des)ordem econômica, não analisamos a crise meramente sob seu aspecto financeiro e não o temos como ponto de partida.
Já sabemos que grandes bancos em todo mundo estão quebrando, da existência de ativos tóxicos, das alavancagens piramidais dos esquemas Madoff´s, da desregulamentação e irresponsabilidade dos sistemas financeiros (predicados pelo liberalismo econômico ao qual nos submetemos durante quase duas décadas) e que esta engenharia financeira, em franca decadência, já se reflete na “economia real” através, principalmente, da brusca redução dos postos de trabalho que nos insere num ciclo vicioso e recessivo.
Mas será que essa é mesmo a causa desta ‘mega’ crise, ou apenas o estopim dos graves problemas e distorções com base na própria “economia real”?
Propomos aqui mudar o enfoque de nossa reflexão sobre a crise, não nos baseando mais na idéia de que a culpa é do trabalhador americano que não pode pagar a hipoteca de sua casa ocasionando assim o que chamam de “Crise do SubPrime”. Acreditamos que a grave distorção entre os rendimentos dos agentes produtivos (salários, lucros, etc), ou melhor, a concentração social de renda, consolidada através de medidas e políticas de Estado que privilegiaram ricos e classes médias rentistas, tornou-se a principal causa da crise que agora vislumbramos.
Por TRABALHO e RENDA
A incorporação da China e Índia na economia de mercado, fez com que grande parte dos investimentos estrangeiros fossem direcionados à essa região, que como sabemos possui densidade demográfica extravagante. Esse movimento apesar de imprimir impressionante crescimento à essas economias, e redução dos preços dos produtos, comprimiu os salários em todo o mundo. Entre 2004 e 2008, a remuneração do trabalho nos EUA representou 45,8% do PIB, o nível mais baixo registrado desde 1929. Paralelamente, constatamos nos últimos anos o alargamento das diferenças entre os níveis salariais extremos. Isto é, executivos e empregados localizados no topo da pirâmide empresarial vêm recebendo intensos aumentos em suas remunerações, ao contrário dos demais trabalhadores que tem seus salários achatados devido à enorme competição que se estabeleceu internacionalmente (entre as empresas, a fim de reduzir custo de produção, e entre trabalhadores).
Os rendimentos, salários das classes médias altas não se traduziram inteiramente em consumo, como a das classes médias/baixas, mas foram direcionadas em grande parte para poupanças de alta rentabilidade, aplicações financeiras no “mercado especulativo”. Enquanto que para as famílias de classe média e baixa a força motriz da expansão do consumo deixou de ser o aumento de suas rendas, passando a ser o endividamento familiar a válvula propulsora do consumo e do sistema produtivo e a desregulamentação viabilizou financiamentos imaginando que o ciclo de endividamento e crédito não pudesse se interromper. A “Bolha de Crédito” estoura e se evidencia por meio da “Crise dos SubPrimes”.
Além das distorções relacionadas à renda e ao consumo, houve um estímulo muito grande à que os investimentos fossem direcionados para especulação no “mercado financeiro”. Taxas de juros positivas (e no caso do Brasil, exorbitantes), a instauração do dólar como padrão de moeda mundial, adoção de taxas de câmbio flexíveis pelos países, inovações dos instrumentos financeiros sem regulação, autonomia dos bancos centrais em alguns lugares e a crença de que o mercado se “auto regula” e , portanto, funciona “perfeitamente” e em “equilíbrio”, foram incentivadores da irresponsabilidade que se estabeleceu na economia.
Por meio de medidas econômicas e políticas, no Brasil a partir de 1990, pudemos observar a flexibilização dos direitos trabalhistas, a diminuição dos gastos do governo em programas e projetos sociais, a privatização de empresas estratégicas para uma possível autonomia do país. Enfim, tudo que reduzisse o papel do Estado a zero no que diz respeito às políticas sociais e de desenvolvimento e ampliasse o Estado ao máximo, no que refere ao aumento de sua capacidade e responsabilidade para remunerar os credores (instituições financeiras, FMI, etc) , na forma de juros elevados, superávits públicos, responsabilidade fiscal, etc.
As conseqüências: A cada dia anunciam milhares de demissões em todo canto do mundo. Sem proteção social e assistência do Estado (como aquela que salvam bancos e grandes corporações com dinheiro do contribuinte) a situação tende a piorar. É imprescindível nesse momento que haja organização dos trabalhadores para assegurar seus direitos e incrementos de renda, ação estatal no sentido de assistir o trabalhador e incentivar investimentos produtivos e por que não dizer, é hora de arregaçar as mangas e buscar alternativas ao modo de produção perdulário, amplamente desigual e desestruturador de nossas relações sociais.
