
Se o tablóide da família Frias pode falar que a ditadura no Brasil foi uma “ditabranda”, nós também podemos falar que a democracia no Brasil não passa de uma democradura. Nosso processo de transição política foi conduzido por cima e os mesmos agentes sociais que se sustentavam e se beneficiavam da ditadura, seguem bem e no poder no período democrático, mesmo sob um governo federal dito de esquerda. A transição política no Estado de São Paulo é um bom exemplo de como a democracia no Brasil foi se estruturando em continuidade com as práticas autoritárias próprias da ditadura. Na década de 1980, o PMDB se elegeu para o governo estadual com Franco Montoro. Nos seus primeiros anos de gestão, o partido da oposição oficial tentou humanizar as prisões e controlar a violência policial. Porém, antes mesmo da fim do mandato, os secretários mais progressistas, como José Carlos Dias, foram removidos de seus cargos, e velhos colaboradores da gestão do interventor Maluf voltaram a ocupar posições estratégicas no governo, prolongando as práticas e discursos da ditadura no regime democrático. Com Quércia eleito, já não restava nenhum pmdbista progressita no governo estadual. Nesse período foi dada a tônica policialesca com que o Estado economicamente mais importante do Brasil deveria ser governado. A ROTA foi posta na rua, e matar sumariamente a suspeitos virou política pública de segurança. A receita deu tão certo, que Fleury, que era Secretário de Segurança de Quércia, foi eleito para sucedê-lo. E ai veio a explosão das mortes na periferia, o massacre do Carandiru, e outras coisas mais. Com o PSDB a coisa não foi substancialmente diferente. A maior diferença foi a modernização da política de extermínio. Os policiais passaram a ser mais cautelosos para forjar provas que justificassem as execuções sumárias. E explodem as mortes “em confronto com a polícia”, “resistências à prisão seguidas de morte”, e outras alcunhas jurídicas que dissimulam as estatísticas governamentais.
Passou da hora de encararmos friamente esses fatos e formularmos uma real alternativa para essa situação. É claro que não podemos esquecer o terror da ditadura militar, mas tal lembrança não pode distorcer nossa visão sobre o presente: no Brasil não existe democracia, existe uma democradura.