A TV Globo mentiu sobre o caso do conflito entre capangas de Daniel Dantas e o MST no sul do Pará. O cárcere privado não existiu, conforme explicou o jornalista em depoimento à polícia do Estado. Segue matéria que trata da questão.

Repórter da Globo desmente versão de cárcere privado
27/04/2009
Por Max Costa*
Vitor Haor, repórter da TV Liberal – afiliada da TV Globo -, depôs ao
delegado de Polícia de Interior do Estado do Pará e, em seu
depoimento, negou que os profissionais do jornalismo tenham sido
usados como “escudo humano” pelos Sem Terra, bem como desmentiu a
versão – propagada pela Liberal, Globo e outras emissoras – de que
teriam ficado em cárcere privado, durante conflito na fazenda Santa
Bárbara, em Xinguara.
Está de parabéns o repórter – um trabalhador que foi obrigado a
cumprir uma pauta recomendada, mas que não aceitou mais compactuar com
essa farsa. Talvez tenha lhe voltado a mente o horror presenciado pela
repórter Marisa Romão, que em 1996 foi testemunha ocular do Massacre
de Eldorado dos Carajás e não aceitou participar da farsa montada
pelos latifundiários e por Almir Gabriel, vivendo desde então sob
ameaças de morte.
A consciência deve ter pesado, ou o peso de um falso testemunho deva
ter influenciado. O certo é que Haor não aceitou participar até o fim
de uma pauta encomendada, tal quais os milhares de crimes que são
encomendados no interior do Pará. Uma pauta que mostra a pistolagem
eletrônica praticada por alguns veículos de comunicação e que temos o
dever de denunciar.
Desde o início, a história estava mal contada. Um novo conflito
agrário no interior do Pará, em que profissionais do jornalismo teriam
sido usados como escudo humano pelo MST e mantidos em cárcere privado
pelo movimento, em uma propriedade rural, cujo dono dificilmente tinha
seu nome revelado. Quem conhecia e acompanhava um pouco da história
desse conflito sabia que isso se tratava de uma farsa. A população,
por sua vez, apesar de aceitar a criminalização do MST pela mídia e
criticar a ação do movimento, via que a história estava mal contada.
As perguntas principais eram: como o cinegrafista, utilizado como
“escudo humano” – considero aqui a expressão em seu real sentido e
significados -, teria conseguido filmar todas as imagens? Como
aconteceu essa troca de tiros, se as imagens mostravam apenas os
“capangas” de Daniel Dantas atirando? Como as equipes de reportagem
tiveram acesso à fazenda se a via principal estava bloqueada pelo MST?
Por que o nome de Daniel Dantas dificilmente era citado como dono da
fazenda e por que as matérias não faziam uma associação entre o
proprietário da fazenda e suas rapinagens?
Para completar, o que não explicavam e escondiam da população: as
equipes de reportagem foram para a fazenda a convite dos proprietários
e com alguns custos bancados – inclusive tendo sido transportados em
uma aeronave de Daniel Dantas – como se fossem fazer aquelas típicas
matérias recomendadas, tão comum em revistas de turismo, decoração,
moda e Cia (isso sem falar na Veja e congêneres).
Além disso, por que a mídia considerava cárcere privado, o bloqueio de
uma via? E por que o bloqueio dessa via não foi impedimento para a
entrada dos jornalistas e agora teria passado a ser para a saída dos
mesmos? Quer dizer então que, quando bloqueamos uma via em protesto,
estamos colocando em cárcere privado, os milhares de transeuntes que
teriam que passar pela mesma e que ficam horas nos engarrafamentos que
causamos com nossos legítimos protestos?
Pois bem, as dúvidas eram muitas. Não apenas para quem tem contato com
a militância social, mas para a população em geral, que embora alguns
concordassem nas críticas da mídia ao MST, viam que a história estava
mal contada. Agora, porém, essa história mal contada começa a ruir e a
farsa começa a aparecer.
* Max Costa é jornalista de Belém e também membro da secretaria geral do PSOL