O Bella, Ciao!

Quando parece que a crise mundial havia ficado para trás, e haviamos perdido o tempo histórico das lutas vem sempre boas novas. Desta vez as notícias vem da Itália, luta, ocupação e gravando.

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

 

manifestazione_arezzo21

 Na periferia industrial de Roma, na Tiburtina, a fábrica Eutelia, uma das mais importantes da área de informática da Itália, foi fechada pelos seus donos, demitindo 1200 trabalhadores. Faz mais de um més, a fábrica foi ocupada pelos operários, e posta para produzir. A 10 de novembro, os trabalhadores repeliram um ataque de bandas para-policiais (“vigilantes”). A 25 de novembro, um ato-festival foi realizado na fábrica, com oradores e grupos musicais, para receber solidariedade e divulgar a luta. Lá fui eu, levar meu apoio e saber o que rolava.
 
O ato era bastante pequeno, pouco numeroso. Os oradores sindicais (FIOM-CGIL) apelavam para a sensibilidade das autoridades, fustigavam os donos pela sua “má gestão da empresa”, crticavam a mídia. Até que um orador, bem mais velho, tomou a palavra e, falando com energia, responsabilizou o capitalismo, e chamou à unidade dos ocupantes da Eutelia com os outros trabalhadores da Itália que lutam pelos mesmos motivos, em especial os sardos e venetos da Alcoa (que dois depois enfrentaram a polícia, em manifestação nas ruas de Roma) (ver em baixo).
 
Quem era ele? Ninguém menos que Mario Monicelli, o diretor e roteirista de “L’ Armata Brancaleone”, “I Compagni”, “I Soliti Ignoti”, “Brancaleone nelle Crociate”, “Romanzo Popolare”, “Amici Miei”, “Parenti Serpenti”, e tantos outros filmes, que já não são só parte dos clássicos do cinema italiano, mas da própria cultura universal (viraram até expressòes usadas na linguagem corrente). O ùnico “regista” italiano que conseguiu reunir, num só filme, Albertone Sordi e Totò, os dois maiores comediantes do cinema italiano em todos os tempos.

Monicelli_aspx
 
Lá estava ele, com seus 95 anos (sim, noventa e cinco), falando com a energia de um garoto, chamando à unidade dos trabalhadores, sublinhando e encorajando o papel das mulheres na luta de classes, ele que o filmou como ninguém no fantástico “I Compagni”, de 1961 (Mario Monicelli, Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Annie Girardot: muito tempo passará até outro filme reunir quatro génios como esses…), quando os movimentos feministas, na Europa e no mundo, apenas engatinhavam.
 
Fui falar com ele, ele sentado no meio dos operários, o vencedor dos Festivais de Veneza e Berlim, bebendo seu cafezinho. A conversa não foi fácil, ele está começando a ter problemas auditivos (embora se negue a usar aparelho de ouvido), mas foi o suficiente para me dizer que continua “mais comunista do que nunca”. E falava com qualquer um que quisesse falar com ele, eu inclusive.
 
Pensei: não sou da geração da Internet e do celular, do hi-phone e do skype, do sei lá mais o que (não consigo nem acompanhar), das viagens fáceis para qualquer lugar, e não me considero sortudo por isso (bem ao contrário); mas sou da geração à qual Monicelli (e os poucos que estavam à sua altura) ensinou, depois de passar pelo fascismo e pela guerra, coisas que, hoje, nos fazem sorrir quando vemos (ou lemos, ou assistimos) “deconstruçòes” dos “ocidentalismos” (e dos “orientalismos” ad hoc), defesas dos “multiculturalismos”, ou “re-inclusòes” dos “excluídos da história” – num festival de populismos intelectuais paternalistas de terceira categoria, que passa por “novidade”. Sem falar em algumas “criacionices” cinematográficas, hollywoodianas ou não, que, perto dos filmes de Monicelli parecem obras de estudantes desorientados de cinema do primeiro ano da ECA-USP…
 
Monicelli nos fez viver o sublime e o ridículo dos desempregados/ladròes amadores do capitalismo hodierno (em “I Soliti Ignoti”), nos mostrou como os “excluídos” se “incluiam” sozinhos (em “I Compagni”) e se fusionavam, no partido operário, com a intelectualidade revolucionária… e também ingénua (Mastroianni!), justamente porque revolucionária. E os dois “Brancaleone” são muito mais que “comédias italianas”: décadas antes que isso virasse “moda”, Monicelli explodiu, a tiros de gargalhada, todos os euro/cristiano-centrismos – Monicelli/Gassman, encontros como esse só acontecem dois ou très por século (outro génio do século XX, este lamentavelmente morto – prematuramente -, Bernard-Marie Koltès, acabou com todo o racismo anti-árabe que grassa na Europa, com uma só frase: “Se na França não houvesse árabes, ela seria igual à Suíça”).

4103147559_ef20fb06fb
 
Monicelli, o ùnico intelectual italiano na ocupação da fábrica, com seus 95 anos, um dos maiores diretores de cinema do século XX, e também do século XXI (quem duvidar, que assista “Lettere della Palestina”, de 2002, ou “Le Rose del Deserto”, de 2007), um jovem quase centenário, porque artista e comunista.
 
Vão ai algumas fotos, da ocupação da Eutélia, da luta contra a polícia dos operários da Alcoa, e uma de Monicelli comigo no ato-festival, lamentavelmente pouco clara, porque tirada com um celular chinès (mas não comunista).
 
Ciao, grande Mario, nos vemos na próxima ocupação de fábrica, para falarmos de internacionalismo e comunismo. Monicelli ficou até o final do ato, depois o acompanhamos até o ponto onde tomou, sozinho, o táxi que o levou à casa; eu fui andando até meu ponto de ónibus que, afinal, sou um adolescente.

Esta entrada foi publicada em Contra ou Cultura!!!, crise econômica e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>