PLINIO VAI AO QUE INTERESSA

Divulgamos hoje entrevista com o nosso pré-candidato a presidente publicada na última edição da Carta Capital.


*Plínio de Arruda Sampaio | O pré-candidato à Presidência quer discutir o
que importa
*
Após fortes embates internos, Plínio de Arruda Sampaio venceu a disputa com
o grupo da ex-senadora Heloísa Helena e foi escolhido candidato à
Presidência pelo PSOL. Dissidência do PT, o partido alcançou expressiva
votação em 2006 ao apostar em um discurso moralista. Há mais de 60 anos na
vida política, Sampaio garante que o tom de sua campanha será outro. “Quero
discutir as coisas que importam.”

*CartaCapital: Em 2006, Heloísa Helena chegou a 11% de intenção de voto
baseada em um discurso udenista. Qual vai ser o tom da campanha do PSOL
neste ano?
Plínio de Arruda Sampaio:* Esse foi um ponto de discussão nas prévias do
partido, pois não tenho esse tipo de discurso. E tenho medo de que esse tipo
de discurso distorça o problema real do País. Há, sem dúvida, um problema de
corrupção e essa corrupção precisa ser denunciada e combatida, mas, na
verdade, esse combate não pode obscurecer o confronto principal, a
contradição desse regime capitalista selvagem. Peguemos o caso da tragédia
no Rio de Janeiro. Se houve corrupção ali, é necessário denunciar, mas o
importante é debater a especulação imobiliária, o peso que ela tem no
desenvolvimento das cidades. Por que aquela população está lá, mal alojada
em favelas, morros? Por falta de uma reforma agrária. Por que há 80 mil
imóveis estocados em áreas melhores do Rio de Janeiro para serem alugados
durante as Olimpíadas? O objetivo da minha campanha é fazer um diagnóstico
real dos problemas do Brasil.

*CC: Por que não avançaram as conversas com o PV de Marina Silva?
PAS:* O PV é uma proposta ecológica muito limitada. A ideologia dele é
“salvar a natureza” e isso escamoteia o verdadeiro debate. O verdadeiro
debate é que o capitalismo, enquanto tal, não tem condições de preservar a
natureza, pois a solução para o problema teria como consequência limitar o
lucro. Tanto é verdade que, apesar de todo o discurso, o ataque à natureza
só cresce, não reduz. Para se preservar a natureza é preciso outro tipo de
economia, uma economia que não se baseie no lucro infinito, sem limites. Sem
uma perspectiva claramente socialista, é impossível preservar.

*CC: Como é possível, nas próximas eleições, escapar da polarização PT-PSDB?

PAS:* O PT e o PSDB são dois partidos da ordem. A divergência entre eles é
menor porque o modelo de desenvolvimento é o mesmo. Vamos fazer outra
proposta. Defendemos uma economia muito mais voltada para as necessidades da
população, capaz de resolver, por exemplo, o problema da habitação, da
educação, da terra. Forçar mesmo a mão na reforma agrária. Nem o (*José*)
Serra nem a Dilma (*Rousseff*)- farão um discurso real sobre o problema
agrário. Ambos vão louvar o agronegócio, a monocultura. E a monocultura e o
agronegócio atingem a natureza.

*CC: Que avaliação o senhor faz dos oito anos de Lula?
PAS:* Há uma realidade que, na superfície, parece tranquila. De certa
maneira existe uma melhora em relação ao governo Fernando Henrique, que foi
um terror. Mas isso escamoteia a verdade. A educação brasileira está em um
nível inacreditavelmente ruim. Outro dia mencionei Getúlio Vargas em uma
palestra. Notei que a plateia, cerca de 40 jovens entre 20 e 30 anos, não
entendeu bem. Perguntei quem já tinha ouvido falar do Getúlio Vargas. Só
quatro levantaram a mão. A saúde vai pelo mesmo caminho. A desnacionalização
da nossa indústria é um fato patente. Estamos regredindo ao estágio de uma
economia primária, exportadora de quatro produtos: soja, cana-de-açúcar para
fazer etanol, carne bovina para não ter colesterol e celulose para fazer
papel higiênico. É um absurdo.

*CC: O senhor foi um dos autores de um plano engavetado pelo governo Lula de
assentar 1 milhão de famílias. É esse o tamanho da reforma agrária
necessária?
PAS:* A pobreza no campo é um problema do poder. A concentração da terra
concede poder a uma capa que domina o camponês. Por isso ele é pobre,
miserável. É preciso quebrar esse poder e ele só pode ser quebrado se for
criado outro poder para o camponês. Uma reforma agrária precisa ter certo
impacto para provocar desequilíbrios em cadeia que permitam à massa
camponesa alcançar um mínimo de conforto. A reforma agrária é uma proposta
capitalista. Caso me pergunte qual a minha visão do campo, direi que não é
essa. Tenta-se reformar o capitalismo porque falta força para erguer outra
organização da agricultura. No início, acreditei que o governo Lula tinha
força para fazer. Estava equivocado. Era colocar 1 milhão de pessoas na
terra em quatro anos. Isso criaria um entusiasmo na população rural. Era o
que se pretendia, sobretudo, se fosse realizada de uma maneira estratégica,
não jogando pontualmente um assentamento aqui, outro ali. Era preciso se
concentrar em pontos focais do território, como aconteceu no noroeste do
Paraná. Como lá foi implantado um número grande de assentamentos, os
trabalhadores ganharam o poder de eleger prefeitos, vereadores etc.

*CC: O presidente Lula não sofreu do mesmo mal da conciliação em excesso?
PAS:* Florestan Fernandes dizia que o militante socialista tem três deveres:
não se deixar cooptar, não se deixar liquidar e obter vitórias para o povo.
Lula deixou-se cooptar. O poder burguês, da ordem, o fascinou. Fui um dos
cinco coordenadores da primeira campanha presidencial de Lula, em 1989.
Tínhamos um projeto de reforma radical do capitalismo. Em 2002, não. Ele
aderiu à ordem. Por que o fez? Não sei. O PT inteiro o fez.

*CC: Mesmo assim essa elite não o aceita?
PAS:* Ah, bom, pois ele é inconfiável. Para o mundo capitalista, confiável é
quem detém capital. E Lula não tem capital. De transfusão de sangue que
passou a ser aceito mesmo só conheço o caso de Fernando Henrique Cardoso.
Mas esse era filho de general, originário da elite. FHC passou a ser
encarado como alguém que teve seus devaneios na juventude, depois criou
juízo e seguiu as regras. Lula não. Ele é perigoso por ser um líder popular.
Mas, sejamos claros, nem essa burguesia o combate mais com tanta ferocidade.
Você é jovem e não viu o que fizeram com João Goulart. Eles estrangularam
Jango. Quando eles atacam, Nossa Senhora, é terrível! Eu vivi isso. Atrás,
não dá muita colher de chá para ele, mas não ataca. Quando ataca, meu filho,
Nossa Senhora, é terrível. Eu vivi isso.

*CC: O senhor tinha mais esperanças nos anos 60 ou agora?
PAS:* Se não acreditasse no Brasil não seria candidato à Presidência. Tenho
enorme convicção das nossas condições de superar as adversidades, de
construir uma nação mais justa. Mas acho que o caminho hoje é mais
pedregoso. Celso Furtado publicou, em 1992, um livro pequeno de uma lucidez
espantosa. Chama-se Brasil, a Construção Interrompida. Naquele tempo, ela
estava mesmo interrompida. Veio a empresa de demolição de Fernando Henrique
e demoliu o que havia. E Lula terminou o trabalho do antecessor. A
construção interrompida virou uma construção destruída

Sobre rafah

Sociólogo, professor e militante socialista e libertário.
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Uma resposta a PLINIO VAI AO QUE INTERESSA

  1. ripa disse:

    ótima entrevista. mais algumas lúcidas contribuições do plinião.

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