COB realiza primeira greve nacional no mandato de Evo Morales

Depois de muito tempo parado, o site outubrovermelho volta a noticiar a luta de classes no Brasil e no mundo. Desta vez é a volta das mobilizações na Bolívia. Assim como no Brasil, durante o governo Evo, os setores mais a esquerda ficaram paralizados diante do governo do primeiro indígena no país. Porem, ao contrário da CUT, a classe trabalhadora boliviana tem um instrumento histórico e de luta. Que mantem a independência de classes e o horizonte socialista. Assim, embora acossados pela conjuntura do início do governo Evo, reassume a frente da luta de classes no país.

Vinicius Mansur

La Paz, Bolívia 

As mobilizações em busca de um maior aumento salarial se intensificaram na Bolívia. Após os atos do 1º de maio e a paralisação na última terça-feira (4), ambas em rechaço aos 5% de aumento anunciado pelo governo, a Central Obreira Boliviana (COB) convocou nesta quinta-feira (6) uma greve geral indefinida visando 12% de incremento salarial. 

De acordo com o presidente da COB, Pedro Montes, na segunda-feira (10), sairá uma marcha de Caracollo, no departamento de Oruru, até a sede do governo em La Paz. As duas cidades estão distantes cerca de 140 quilômetros uma da outra. 

A ala mais radical da COB, liderada pelos trabalhadores de fábrica anunciaram que vão intensificar a greve de fome com os dirigentes dos 70 sindicatos filiados. De acordo com o dirigente fabril, Hugo Torres, a greve já leva 11 dias com 55 operários. 

O prefeito recém-eleito de El Alto, membro do partido de Evo Morales, o Movimento ao Socialismo – Instrumento pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP), Edgar Patana, apoiou a mobilização. “É muito pouco. Antes de lançar isso deveriam chamar ao diálogo”, disse Patana, que ainda é secretário da Central Obreira Regional da cidade. 

Diálogo e acusações

 Em resposta, o governo convocou as organizações de trabalhadores para desenhar as próximas políticas salariais. 

“Sobre as questões salariais, como todos sabem, nosso ponto de vista está fechado. Entretanto, para frente, no médio prazo, junto com os trabalhadores de base, estamos convencidos que temos que desenhar uma política econômica e salarial”, afirmou o ministro de Obras Públicas, Serviços e Moradia, Wálter Delgadillo.

 O ministro enfatizou que “este é um governo de trabalhadores” e que o intuito é estreitar os laços com suas organizações “não só para o tema de salários, mas também na elaboração de leis”. Segundo Delgadillo, os projetos para as novas Lei de Pensão e Lei Geral Trabalho estão sendo negociadas desde o princípio com os trabalhadores. 

O porta-voz presidencial, Ivan Canelas, chamou de injustas as reivindicações da COB, uma vez que o governo Morales aumentou os salários em 45% entre 2006 e 2010, enquanto de 2002 a 2005, o aumento foi de apenas 9,6%. Canelas ainda ressaltou a política de bônus (rendas oferecidas pelo governo, como o Bolsa Família no Brasil): 

“Essas políticas sociais também apóiam a economia familiar, por isso nos parece injusta a atitude dos dirigentes que assumem medidas de pressão como se o governo nunca os tivesse atendido. Que trabalhador não tem um filho que recebe o bônus Juancito Pinto? Que trabalhador não tem um pai ou avô que recebe a Renda Dignidade? Que trabalhador não tem uma mulher e filhos que recebem o bônus Juana Azurduy?”, ponderou Canelas.

 O vice-presidente e presidente em exercício, Álvaro Garcia Linera, foi mais duro e classificou a mobilização de contra-revolucionária. Recordando seu passado sindicalista, Linera afirmou que “uma greve geral é uma medida política que se toma para derrubar um governo”, mas “não terão êxito”.

 “Essas mesmas pessoas de 20 anos atrás são as mesmas que hoje reivindicam, com o mesmo critério, preparar o terreno para a direita facista (…). Usam uma linguagem de esquerda, mas seu objetivo é de direita. São as mesmas pessoas que em 2007 propuseram a mesma medida em consonância com a estratégia de derrubada do governo do presidente Evo”, disse Linera. 

O vice-presidente ainda levantou suspeitas sobre a participação estadunidense no caso: “Não duvidaria que atrás disso esteja a Embaixada norte-americana. Como não puderam com o golpe de Estado, com o referendo revogatório, com o assassinato, agora, desde dentro, tentam debilitar e utilizar uma justa demanda trabalhadora para obter crédito político, contra-revolucionário e de direita.”

 Por fim, Linera chamou os trabalhadores a reflexão e ao diálogo. “Este é um governo que trabalha para melhorar suas condições de vida, que está mostrando que um dirigente sindical, um trabalhador, um indígena, é capaz de governar a Bolívia em benefício de todos”, concluiu.

 Organizações sociais contra a greve

 A Central Obreira Departamental (COD) de Santa Cruz anunciou que realizará uma marcha para defender o aumento de 5% anunciado pelo governo. Por sua vez, a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), a Confederação nacional de Mulheres Camponesas Indígenas Originárias da Bolívia “Bartolina Sisa” (CNMCIOB-BS) e as seis federações de cocaleiros do trópico de Cochabamba anunciaram que não vão acatar a convocatória da COB e apoiarão o diálogo convocado pelo governo.

 Outros setores mobilizados

 Ao mesmo tempo que a COB chama à greve geral, outros setores da sociedade boliviana também se encontram mobilizados. Nesta quinta-feira (6), os trabalhadores do transporte marcharam em La Paz pedindo que o governo desbloqueie as estradas que levam a Caravani, no norte de La Paz. O bloqueio realizado por moradores desta cidade acontece como forma de reivindicar a instalação de uma planta industrial para processamento de cítricos, que tem a instalação prevista inicialmente para a cidade de Alto Beni. 

No mesmo dia, docentes, funcionários e estudantes da Universidade Mayor de San Andrés (UMSA) realizaram outra mobilização pelas ruas de La Paz pedindo respeito a autonomia universitária, maior orçamento e rechaçando a sua inclusão no Estatuto do Funcionário Público.

 Já as esposas de trabalhadores da Polícia entraram no quarto dia de greve de fome, em protesto ao aumento salarial proposto pelo governo, que, para os policiais, é de 3%.

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