Mensalão, mensalão do DEMO, caixa 2, super-faturamento, dinheiro na cueca, na meia, etc. Corrupção: todo dia se ouve falar nessa odiável palavra. Em época de eleições é importante nos fazermos essas perguntas: por quê tanta corrupção nesse país? Por quê os políticos estão mais preocupados em enriquecer ilegalmente do que ajudar o povo que os elegeu? Por quê o político fala uma coisa na campanha e faz outra no governo? Por quê tanta mentira, sujeira, enganação? De quem é a culpa disso tudo?
É preciso admitir: a culpa é nossa, de todos nós, e por dois motivos. Primeiro porque escolhemos mal, porque nos deixamos levar por campanhas publicitárias, musiquinhas pegajosas, desenhinhos, bonequinhos; porque nos preocupamos mais com a vida pessoal e a aparência do candidato do que com sua trajetória política, do que com os ideais de seu partido, etc. Porque o povo brasileiro escolhe o seu candidato na véspera da eleição, porque ele olha para o jornal para ver quem está ganhando e vota nesse qualquer um para não “perder” o voto. Também porque admitimos que o corrupto fique lá no poder, que ele, quando desmascarado, peça afastamento do cargo, candidate-se nas próximas eleições, e lá estará o povo novamente a elegê-lo. Pois é, a culpa é nossa, do povo brasileiro.
Mas existe um segundo motivo para admitirmos essa culpa. Um motivo mais profundo que não diz respeito só às escolhas impensadas que fazemos no momento de votar. Afinal, qual é o nosso real poder de mudar tudo isso com um voto a cada dois anos? O problema não é só o candidato que escolhemos, é o sistema que aceitamos. O problema não se reduz a um ou outro deputado, senador, governador ou presidente; mas é a Câmara do Deputados, o Senado, o governo, o poder executivo, a estrutura de poder. O problema da corrupção está na estrutura do governo, a corrupção faz parte da mecânica do governo, ela é a regra do jogo, e não a exceção. A exceção é quando ficamos sabendo de casos de corrupção, e o pouco que ficamos sabendo não é metade de tudo o que acontece. Se a corrupção é a regra, quem quiser jogar nesse sistema teria que aceitá-la. Teria?
E se propormos novas regras para o jogo da política? E se não aceitarmos mais sermos consultados apenas por dois minutos a cada dois anos? É preciso ver a democracia no Brasil não como algo bem acabado que, com melhores escolhas de candidatos, caminharia suficientemente bem. É preciso ver a democracia do Brasil como algo em construção e que está longe de realizar-se plenamente. Não é porque votamos que vivemos num país democrático. Não é democrático um país em que um candidato investe milhões numa campanha eleitoral para ter chances de se eleger. De onde vem tanto dinheiro para queimar numa campanha de 3 meses? A máquina, o sistema da corrupção já começa a funcionar antes do governo, nas próprias eleições, na campanha eleitoral. Não é democrático um país em que existam pessoas vivendo em barracos num morro ao lado de prédios de luxo. Não é democrático um país em que o político, o juiz, ou o policial corruptos sejam temporariamente afastados do cargo, enquanto a mãe de família que rouba um shampoo no supermercado seja presa por anos à fio.
No nosso entendimento, só o povo organizado e atuante 100% do tempo pode mudar realmente essa situação. É preciso fazer uma grande e profunda transformação na estrutura de poder da sociedade para acabar com a corrupção. Não há outro caminho para o povo brasileiro. O caminho é difícil, longo e perigoso, mas é preciso ter a coragem de percorrê-lo. É preciso dar os primeiros paços. E para nós alguns dos primeiros paços seriam estes:
1 – defender a proibição de financiamento privado de campanhas eleitorais;
2 – defender a ampliação do uso de plebiscitos e consultas populares para a tomada de decisões políticas;
3 – reivindicar a multiplicação dos espaços de discussão, participação e decisão popular no desenvolvimento de políticas públicas;
4 – defender e elaborar uma reforma profunda dos poderes executivo, legislativo e judiciário.
Só a luta libertará o povo da corrupção!


Interessante reflexão, mas
1. Querer que todos sejam 100% atuantes em 100% do tempo, além de ser uma utopia, é de uma chatice policialesca e escoteira tremenda.
Existem países com bem menos corrupção do que o Brasil e que não exigem isso de seus cidadãos, que estão livres para viver sua vida pequeno-burguesa-consumista, ter um bom emprego, ou um emprego simples que pague bem, ou seguir carreira acadêmica, sair viajando pelo mundo, e, é claro, se informar e se educar com qualidade e se manifestar quando assim quiserem.
A diferença fundamental desses países para o nosso Brasil são duas: oferecem educação de melhor qualidade para toda a população, e possuem instituições mais fortalecidas. Essas conquistas são políticas e exigem uma certa maturação cultural, e também um nível de renda per capita mais elevado. Estamos nessa direção, embora sem dúvida ainda falte muito.
2. Sem dúvida a mobilização da população tem um papel importante nesse processo. Mas querer que se governe por plebiscito é um pouco demais, não? Isso é querer que os políticos profissionais e os militantes como vocês fiquem em constante campanha. Vão acabar perdendo para os meios de comunicação. Se a aplicação da pena de morte fosse à plebiscito, já estaria liberada faz tempo no Brasil.
3. O financiamento público de campanha pode ser uma boa. Mas para ser aprovado, precisaria que também fosse aprovada a cláusula de barreira. Senão, qualquer zé mané iria fundar um partido para ganhar dinheiro público.