Crack, ópio, colonização e capitalismo

Ao ler o livro do poeta, comunista e amante dos mares Pablo Neruda, Pelas Praias do Mundo, me deparei com a sua experiência na Índia. Nesse pequeno capítulo ele se dedica escrever sua experiência com o Ópio. O escrito me pareceu muito mais próximo, aqueles que vivem no centro de São Paulo já naturalizam a expansão do Crack. A reflexão se faz necessária. O Crack leva a uma completa degradação humana. Com certeza, os motivos que levam uma pessoa a usar esta droga está relacionada com as mais diversas frustrações e ausência de perspectiva proporcionadas por esse sistema. Assim como outras drogas. Mas esta tem um poder especialmente destrutivo, me pareceu muito ao Ópio. Reproduzo aqui essa passagem. Ao mesmo tempo coloco um vídeo feito pela Coletivo Garapa que retrata muito bem a Crackolândia. A provocação está feita.

O Ópio

Havia ruas inteiras dedicadas ao ópio… Sobre baixos estrados de madeira estendiam-se os fumantes… Eram os verdadeiros lugares religiosos da Índia… Não tinham nenhum luxo, nem tapeçarias, nem almofadas de seda… Tudo eram tábuas sem pintura, cachimbos de bambu e encostos de louça chinesa… Flutuava um ar de decoro e austeridade que não eistiam nos templos… Os homens adormecidos não faziam movimento nem ruído… Fumei um cachimbo… Não era nada… Era um fumo caliginoso, morno e leitoso… Fumei quatro cachimbos e passei quatro dias doente, com náuseas que me vinham da espinha dorsal, que me desciam do cérebro… E um ódio ao sol, à existência… O castigo do ópio… Mas aquilo não podia ser tudo… Tanto se havia falado, tanto se havia escrito, tanto se havia havia remexido nas malas e maletas, com objetivo de se apreender nas alfândegas o veneno, o famoso veneno, o veneno sagrado… Tinha de vencer o asco… Tinha de conhecer o ópio, saber do ópio, ter condições de dar um testemunho… Fumei muitos cachimbos até que conheci… Não há sonhos, não há imagens, não há paroxismo… Há um debilitamento melódico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera… Um desvanecimento, um oco dentro da gente… Qualquer movimento, do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carro, uma buzina, um grito na rua passam a fazer parte de um todo, de uma repousante delícia… Compreendi que os trabalhadores das plantações, os diaristas, os homens que puxam riquixás o dia inteiro, todos os dias, ali entravam de repente e ali permaneciam, mergulhados na sombra, imóveis… O ópio não era o paraíso que me haviam pintado, o paraíso dos que buscam o exótico, mas a válvula de escape dos explorados… Todos os clientes daquele fumadouro eram pobres-diabos… Não havia nenhuma almofada bordada, nenhum indício da menor das riquezas… Nada brilhava no recinto, nem mesmo os semicerrados olhos dos fumantes… Descansavam, dormiam?… Nunca pude saber… Ninguém falava… Ninguém falava nunca… Não havia móveis, tapetes, nada… Sobre os estrados gastos, suavizados por tanto tato humano, viam-se pequenas almofadas de madeira… Nada mais, exceto o silêncio e o cheiro do ópio, estranhamente repulsivo e poderoso… Sem dúvida existia ali um caminho para o aniquilamento… O ópio dos magnatas, dos colonizadores, destinava-se aos colonizados… Os fumadores tinham na porta seu preço autorizado, seu número e sua patente… No interior reinava um grande e opaco silêncio, uma inação que amortecia a desdita e adocicava o cansaço… Um silêncio caliginoso, sedimento de muitos sonhos truncados que achavam seu remanso… Aqueles que sonhavam com os olhos semicerrados viviam uma hora submersos embaixo do mar, uma noite inteira em uma colina, gozando repouso sutil e deleitoso…
Desde então não voltei mais aos fumadouros… Já sabia… Já conhecia… Já havia apalpado algo inacessível… Remotamente escondido atrás do fumo…

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“…No reflexo do vidro ele vê, seu sonho no chão se retorcer, ninguém liga pro moleque tendo um ataque,
Foda-se quem morrer desta porra de crack, relaciona os fatos com seus sonhos, poderia ser eu no
Seu lugar, ah, das duas uma eu não quero desandar, aqueles mano que trouxeram essa porra pra
Cá, matando os outros, em troca de dinheiro e fama, grana suja como vem vai não me engana, queria
Que deus, ouvisse a minha voz e transformasse aqui no mundo mágico de oz…

Queria que deus ouvisse a minha voz!!!! (que deus ouvisse a minhavoz) no mundo mágico de oz – 2
Vezes

Hey mano, será que ele terá uma chance, quem vive nesta porra,merece uma revanche…” (Racionais MC’s)

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