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Revolução Árabe
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Refazendo a história – a compreensão da onda revolucionária de 2011
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No primeiro aniversário da Revolução Egípcia, Alex Callinicos procura entender a onda revolucionária e seu potencial para ir muito mais longe As revoluções árabes mostraram uma tenacidade impressionante. Derrubaram alguns ditadores e abalaram o poder de outros. Acima de tudo, elas estão em pleno desenvolvimento. A luta pela democratização da sociedade egípcia continua. E revolucionários na Síria têm demonstrado surpreendente coragem e determinação apesar de mais de cinco mil mortes a mando do Estado. Mas como podemos obter uma medida da importância das revoluções? É tentador fazer comparações históricas. A comparação mais freqüente vem sendo feita em relação às revoluções de 1848, que começou com a derrubada da monarquia francesa e passou a agitar o antigo regime por toda a Europa. Isso não é necessariamente a comparação mais reconfortante, porque o antigo regime conseguiu se manter e esmagar as revoluções. Cerca de 20 anos mais tarde, um líder da extrema-esquerda na Revolução de 1848, o alemão Frederick Engels, refletia em seu exílio, em Manchester. Ele escreveu a outro líder revolucionário exilado, seu amigo e camarada Karl Marx: “O esquecimento completo sobre a causalidade entre revolução e contra-revolução é um resultado necessário de cada vitória da reação. Na Alemanha, a geração mais jovem não conhece absolutamente nada sobre 1848 …; a história sofreu uma parada abrupta lá no final de 1847″. Engels estava descrevendo como a memória da dinâmica da revolução e da contra-revolução se perde em um período de reação. Um efeito disso é que, no retorno de períodos revolucionários, eles são vistos através de uma lente de distorção criada durante os anos em que a contra-revolução foi vitoriosa. Alcance global Isto é ainda mais verdadeiro hoje, depois que as revoluções árabes e a crise econômica global feriram gravemente a era neoliberal, durante a qual o capitalismo imperou sem freios e revoluções foram consideradas coisa do passado. Assim, as tentativas de entender as revoluções são moldadas pelos mitos deste período de reação do mercado livre. Um desses mitos é relativamente fácil de demolir. É a idéia de que a derrubada de Zine el-Abidine Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito, são os últimos de uma sucessão de “revoluções coloridas” que estão se espalhando capitalismo de estilo ocidental liberal em todo o mundo. A dificuldade óbvia com esta visão é que as revoluções na Tunísia e no Egito derrubaram governantes estreitamente alinhados com o imperialismo ocidental. Além disso, seus governos foram sempre foram extremamente elogiados pelo Banco Mundial pela determinação e sucesso com o que implementavam políticas econômicas neoliberais. Aliás, foram precisamente os efeitos do neoliberalismo, ao polarizar e empobrecer as sociedades egípcias e tunisianas e o enriquecer uma elite minúscula intimamente ligada aos regimes, que levaram aos levantes populares. Podemos ver esta mesma dinâmica, na Síria. Mesmo em conflito com Israel e o Ocidente, Bashar al-Assad implementou “reformas” econômicas que beneficiaram um punhado de parceiros de negócios. Mas há outros mitos que se desenvolveram sob o reinado do neoliberalismo. Alguns deles, entre seus críticos. Um dos mais influentes surgiu a partir do livro “Império” de Michael Hardt e Toni Negri, segundo o qual a oposição ao capitalismo atual é impulsionada por uma “multidão” amorfa que procura flanquear em vez de confrontar as cidadelas do poder econômico e político. Este mito foi popularizado no novo livro de Paul Mason, “Why Kicking Off Everywhere”. Nele, Mason apresenta muitos pontos interessantes. Por exemplo, destaca o papel desempenhado por uma geração de graduados desempregados, não apenas nas revoluções árabes, mas também nos movimentos do sul da Europa contra a austeridade e no chamado “Ocuppy”. Um setor formado por aqueles a quem a crise econômica nega um futuro. Mas a validade da análise de Mason é prejudicada por um entusiasmo um tanto ingênuo em relação às tecnologias de comunicação e mídias sociais. Assim, ele escreve: “Uma vez que as redes de informação tornam-se sociais, as implicações são enormes: a verdade agora pode viajar mais rápido do que as mentiras e toda a propaganda torna-se instantaneamente inflamável.” As mídias sociais Mason deveria dar uma olhada no contexto geral e na forma como as mídias sociais têm sido usadas âÂÂÂÂâÂÂÂÂpara construir a campanha presidencial de Ron Paul, voltada para defender as loucuras do mercado livre e dos direitos de propriedade. Em geral, a direita republicana tem sido muito bem sucedida no uso de tecnologias de informação para enfraquecer a presidência de Barack Obama e na divulgação de todo o lixo criado pelos candidatos nas eleições primárias republicanas. Facebook, Twitter e afins, sem dúvida, desempenharam um papel importante ao permitir que ativistas se comunicassem e organizassem. Mas, depois que Mubarak desligou a internet e as redes móveis, antigas tecnologias como telefones fixos e TV (sobretudo Al Jazeera) foram muito mais decisivas durante as lutas que o derrubaram. Agora, a Revolução Egípcia desenvolve uma luta contra o regime que já foi presidido por Mubarak e que sobreviveu a sua queda na forma do Conselho Supremo da Forças Armadas (SCAF). Um processo que vem sendo marcado pelo confronto entre jovens revolucionários da classe trabalhadora e as forças do poder do Estado: exército e polícia de choque. Os jovens revolucionários podem se comunicar pelo Twitter, mas, ao contrário de Mason ou Negri, eles entendem que o poder do Estado tem que ser derrubado, e não ignorado. Ao traçar o rumo futuro das revoluções, no entanto, temos de enfrentar um dos mitos mais fortemente arraigados da era neoliberal: a islamofobia. Muitas pessoas, mesmo da esquerda radical e revolucionária, acreditam que os principais beneficiários da derrubada de Ben Ali e Mubarak foram os islâmicos. Principalmente, depois que venceram as recentes eleições parlamentares, organizados no Nahda, na Tunísia, e na Irmandade Muçulmana e seu Partido da Justiça e da Liberdade, no Egito. Subjacente a este tipo de avaliação pessimista há dois erros. O primeiro trata os islâmicos como um monólito reacionário. Na verdade, a Irmandade Muçulmana é uma formação política complexa, com uma história longa e complicada. Foi beneficiada por sua oposição consistente a Mubarak durante décadas, quando as forças seculares-nacionalistas e comunistas estavam fracas e desacreditadas. Como resultado de seu sucesso e esforços, como o desenvolvimento de programas de bem-estar para os pobres, a Irmandade engloba no seu seio as forças de muito diversos e contraditórios empresários respeitáveis âÂÂÂÂâÂÂÂÂe socialmente conservadora para jovens ativistas que foram baluartes da luta nas ruas. Isto significa que, ao participar do poder junto com a Junta Militar, o FJP estará sob uma enorme pressão. Algo que irá puxar a organização em diferentes direções. Uma das pressões mais importantes virá da crise econômica. Como os socialistas revolucionários egípcios apontam em um comunicado recente, “as reservas cambiais estão rapidamente se esvaindo (caíram de US$ 36 bilhões para US$ 15 bilhões durante o primeiro ano da revolução). A inflação aumenta na ausência de qualquer mecanismo para controlar a alta dos preços. O desemprego cresce continuamente. “E tudo isso está acontecendo no contexto de uma grave crise do capitalismo global, o quel, por sua vez, reduz a renda para do capitalismo egípcio que vinha de fontes como o turismo, o Canal de Suez e o investimento estrangeiro.” O segundo erro é tomar um instantâneo do processo revolucionário em um determinado momento e apresentá-lo como ponto de chegada. No Egito, como nas revoluções anteriores, a consciência muda de acordo com ritmos variados. O inimigo Uma grande minoria da juventude revolucionária enxerga agora a Junta como o principal inimigo a ser destruído. Mas amplas camadas de trabalhadores, camponeses e pobres urbanos estão dispostos a dar à junta e à Irmandade a chance de reformar a sociedade egípcia, ainda que continuem simpáticos aos revolucionários. Em que direção estas camadas se moverem irá determinar o resultado da Revolução Egípcia. Será que eles vão se juntar à minoria revolucionária na luta contra a Junta? Ou será que se moverão para a direita, talvez voltando-se para os islamitas salafistas ultra-puritanos, que também se saíram bem nas eleições? A resposta a esta pergunta dependerá, acima de tudo, da capacidade do movimento dos trabalhadores egípcios. De sua capacidade de oferecer um caminho com base na luta coletiva tanto contra os generais como contra os patrões. Até agora, vimos novos sindicatos e greves muito combativas. Mas é essencial que os trabalhadores encontrem sua própria voz e sua independência política. Apesar dos mitos projetados sobre as revoluções árabes, seu futuro permanece em aberto. No turbilhão das lutas, toda a nossa história pode ser refeita. Fonte: REVOLUTAS – 03/02/2012, www.revolutas.com.br |
