A mídia terrorista corporativa vem implantando o pânico na sociedade com a cobertura desproporcional da gripe suíne. Tiram assim o foco da crise financeira e dos demais problemas reais de nossa sociedade. A gripe suína não é nada diferente de nenhuma outra, e doenças históricas e tradicionais matam muito mais que ela, como a dengue, a malária, a febre amarela. Sobre essas o jornaleco da família frias não escreve uma linha. Por que?
Segue ótima análise de www.viomundo.com.br de uma reportagem do jornaleco da família frias sobre a gripe suína.

fonte: http://www.viomundo.com.br/denuncias/reportagem-da-folha-sobre-gripe-suina-e-totalmente-furada-uma-irresponsabilidade/
‘Reportagem da Folha sobre gripe suína é totalmente furada; uma irresponsabilidade’
Atualizado em 23 de julho de 2009 às 22:29 | Publicado em 22 de julho de 2009 às 08:37
por Conceição Lemes
Domingo, 19 de julho, capa da Folha de S. Paulo:
Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses
Domingo, 19 de julho, caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo:
Gripe pode afetar até 67 milhões de brasileiros em oito semanas
Difícil o cidadão comum ler essas manchetes, e não se apavorar. Quem ainda tem na memória a epidemia midiática de febre amarela de 2008, é impossível não se indignar. Um verdadeiro crime contra a saúde pública foi cometido pela mídia corporativa. O pânico desencadeado pela combinação de má-fe e incompetência de grande parte da imprensa levou milhões de pessoas a se vacinar inutilmente e a correr riscos desnecessários devido aos efeitos colaterais. Duas morreram estupidamente.
Fazer política com notícias de saúde pode matar. E a julgar pela matéria de domingo passado sobre influenza A (H1N1), popularmente conhecida como gripe suína, parece que a lição não foi devidamente aprendida.
Ao descer os olhos pela reportagem descobre-se que:
A pandemia de gripe provocada pela nova variante do vírus A H1N1 poderá atingir entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros ao longo das próximas cinco a oito semanas. De 3 milhões a 16 milhões desenvolverão algum tipo de complicação a exigir tratamento médico e entre 205 mil e 4,4 milhões precisarão ser hospitalizados.
Esses cenários estão na terceira versão do documento “Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza”, publicado em abril de 2006 pelo Ministério da Saúde. Trata-se de um modelo matemático estático criado por epidemiologistas com base no perfil de pandemias anteriores.
Por ser um esquema genérico e não um estudo específico para o atual vírus, são necessários alguns cuidados ao extrapolá-lo para o presente surto.
É possível que alguns dos pressupostos contidos no modelo não valham para o H1N1, cujos parâmetros de transmissão e morbidade ainda não são bem conhecidos, como explicou Eduardo Hage, diretor de vigilância epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde do ministério.
Será que depois do terror da manchete e do primeiro parágrafo alguém da população em geral vai atentar para o restante?
Por que se usou 35 milhões na capa e 67 milhões na chamada interna? Se o jornalista acreditava tanto nos seus cálculos por que não expor aos leitores os dois números juntos? Receio de que o dado pareceria mais inverossímel tamanha a diferença? Ou ficar com os pés nas duas canoas, para uma desculpa estratégica?
Quantos da população em geral sabem um modelo estatístico não significa que isso vá ocorrer na prática?
Se o estudo não é específico para o vírus H1N1, por que forçar a barra? Ter chamada na primeira página? Ou algo mais por trás? Uma das hipóteses: tirar o foco de São Paulo e Rio Grande do Sul, estados governados pelo PSDB e onde há maior número de casos, e jogá-lo no governo federal, já a Folha é tucana-serrista.Que cuidados seriam então necessários para extrapolar o estudo de 2006 para a gripe suína?
Para colocar os pingos nos is, o Viomundo entrevistou o médico epidemiologista Eduardo Carmo Hage, diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde. É o mesmo citado na reportagem da Folha.
Viomundo – Domingo, quando li na Folha Online que a pandemia de “gripe suína afetar até 67 milhões de pessoas nas próximas cinco a oito semanas”, pensei na “epidemia” de febre amarela. Só que, agora, o terrorismo midiático pode levar a uma corrida aos hospitais. Por isso vamos direto ao x da questão: a reportagem da Folha procede ou não?
Eduardo Hage – Não. Há um erro capital na matéria, e o jornalista foi alertado. Mesmo assim, ele utilizou parâmetros do estudo para o vírus H5N1 [responsável pela gripe aviária] para calcular quantas pessoas poderiam ser infectadas pelo H1N1 [causador da gripe suína], quantas precisariam de cuidados médicos e quantas seriam internadas por complicações da doença. Os parâmetros utilizados pela Folha de S. Paulo são totalmente furados. Não têm base epidemiológica, estatística, científica. Foi um chute a quilômetros de distância do alvo.
Viomundo – O que realmente a Folha perguntou ao Ministério da Saúde?
Eduardo Hage — O jornalista perguntou se estávamos trabalhando com algum modelo matemático como o feito para preparação da pandemia de H5N1 e se os parâmetros utilizados naquele modelo serviam para esta pandemia. Fui taxativo: o Ministério da Saúde, assim como a Organização Mundial da Saúde (OMS), não estão trabalhando com modelo estatístico para essa pandemia.
Viomundo — Por quê?
Eduardo Hage – Hoje, não existe nenhuma estimativa suficientemente válida para calcular a taxa de ataque, que o jornalista da Folha usa no texto dele. Existe somente um estudo realizado no início da pandemia em La Gloria, localidade pequena, isolada, no México. Qualquer estatístico com boa formação sabe que não dá para extrapolar esses dados para doença disseminada, como a influenza A. Portanto, por prudência, o Ministério da Saúde e a OMS não construíram ainda modelos matemáticos para a presente pandemia.
Viomundo — O que é taxa de ataque?
Eduardo Hage – É o percentual de pessoas que vai se infectar pelo vírus entre aquelas sem imunidade contra a doença. São as pessoas suscetíveis. Suponhamos que num grupo de 100 pessoas suscetíveis 50 se infectem. A taxa de ataque seria de 50%. Também não há o dado sobre transmissibilidade. Ou seja, a partir de um caso, quantas pessoas poderão se infectar.
Viomundo — O Ministério da Saúde não dispõe desse número?
Eduardo Hage – Nem nós nem ninguém. Não há nenhuma publicação válida hoje que forneça os parâmetros básicos para se construir um modelo matemático. Por isso ele não existe. Chamei ainda a atenção do jornalista de que as estimativas para H5N1 basearam-se nas pandemias de 1918, da gripe asiática e na de Hong-Kong, e que não eram válidas para esta pandemia de gripe.
Viomundo – Mas o texto dá a entender que sim, ressalvando que alguns pressupostos contidos no estudo do H5N1 podem não valer para o vírus da gripe suína.
Eduardo Hage — Os parâmetros do estudo do vírus H5N1 NÃO VALEM para a gripe suína. Foi isso que eu disse.
Viomundo – Então a reportagem da Folha é furada?
Eduardo Hage — Totalmente. Não há nenhum artigo em que o jornalista da Folha possa se sustentar para fazer os cálculos que fez. É pura ilação, sem qualquer base científica.
Viomundo – O que há por trás desses cálculos equivocados?
Eduardo Hage — Eu espero que não seja a tentativa de gerar desinformação na população, como aconteceu na febre amarela, que você citou.
Viomundo – Traduzindo.
Eduardo Hage – Eu vejo duas tentativas de uso mal intencionado da informação. Primeira: a reportagem diz que até 4,4 milhões de pessoas precisarão ser internadas nas próximas cinco a oito semanas. Como os números, ao final dessa pandemia, estarão distantes dos mostrados, podem gerar desconfiança desde já: ou de que o Ministério da Saúde está omitindo ou vai omitir dados. Segunda: já que a pandemia pode atingir até 67 milhões de pessoas, será uma pandemia totalmente fora de controle. Ambas não tem base científica e não irão se sustentar.