Informe:

As duas caras da família Frias

Na edição de hoje do jornal da família Frias, temos uma foto grande e letras garrafais dizendo “Cuba reprime protesto da oposição na visita de Lula”. Diz o jornaleco que: a morte de um preso “político”, devido a uma greve de fome, ofuscou a visita do presidente Lula. Porem...

Leia Mais

TUMA E MALUF OCULTADORES DE CADÁVERES

Posted by Editorial do Outubro | Posted in Contra ou Cultura!!!, Criminalização do Movimento, Imperialismo, política institucional | Posted on 27-11-2009

Tags:, , ,

0

Tuma e Maluf estão sendo processados por “ocultação de cadáver” nos cemitérios de Perus e Vila Formosa, um era o chefão do DOPS, outro era o prefeito nomeado pelos militares. Com eles também estão no processo os ex-chefes dos serviços funerários municipais, e até atuais servidores da Polícia Científica de São Paulo, que vêm sistematicamente se negando a identificar os cadáveres.

Que sejam todos eles realmente punidos, seja nos tribunais, seja nas urnas, seja nas ruas.

Nem esquecer, nem perdoar!

Segue o informe completo do Ministério Público sobre a ação judicial.

Foto de Maluf com ditador

maluf_ditadura

Foto dos torturadores que comandavam a polícia da ditadura: Fleury, Perrone e Tuma:


Tuma_Fleury_Perrone_policia da ditadura

Ditadura: MPF move ação civil contra Tuma, Maluf e legista por ocultação de cadáver

ACP pede a responsabilização pessoal dos réus pelo desaparecimento de militantes políticos, em São Paulo, durante a Ditadura; em outra ação, universidades e legistas são acusados de demora indevida para identificar vítimas da vala de Perus

O Ministério Público Federal em São Paulo ingressou hoje na Justiça Federal com duas ações civis públicas para que sejam declaradas as responsabilidades pessoais de autoridades e agentes públicos civis e da União, Estado e Município de São Paulo por ocultações de cadáveres de opositores da Ditadura Militar (1964-1985), ocorridas na Capital, nos cemitérios de Perus e Vila Formosa, e a de pessoas jurídicas e legistas que contribuíram para que as ossadas de mortos e desaparecidos políticos na vala comum de Perus permanecessem sem identificação.

Na ação civil sobre as ocultações de cadáveres , o MPF pede que seja declarada a responsabilização pessoal de cinco autoriades da época: do delegado Romeu Tuma, atualmente senador por São Paulo, que foi chefe do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, o Dops, entre 1966 e 1983; do médico legista Harry Shibata, ex-chefe do necrotério do Instituto Médico Legal de São Paulo; dos ex-prefeitos de São Paulo, Paulo Maluf (gestão 1969-1971), atualmente deputado federal, e Miguel Colasuonno (gestão 1973-1975), e de Fábio Pereira Bueno, diretor do Serviço Funerário Municipal entre 1970 e 1974.

O MPF pede que os cinco sejam condenados à perda de suas funções públicas e/ou aposentadorias. Caso sentenciados, os mandatos atuais de Tuma e Maluf não seriam afetados, pois a Constituição impede a perda de mandato em ações civis públicas. Além da cassação das aposentadorias, o MPF pede que as pessoas físicas sejam condenadas a reparar danos morais coletivos, mediante indenização de, no mínimo, 10% do patrimônio pessoal de cada um, revertidos em medidas de memória sobre as violações aos Direitos Humanos ocorridos na Ditadura. Desaparecidos políticos foram sepultados nos cemitérios de Perus e Vila Formosa em São Paulo, de forma totalmente ilegal e clandestina, com a participação do IML, do DOPS e da Prefeitura.

Em 1999 o MPF interviu nos trabalhos e  conseguiu que a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo assumisse a responsabilidade pela continuidade. Foi designado Daniel Muñoz, do IML, e professor da USP, para o trabalho. Os restos mortais foram trazidos da Unicamp. Não houve, porém, sucesso no trabalho e nenhum relatório conclusivo foi emitido. O MPF entende que Muñoz descumpriu seus deveres e atrasou os trabalhos.
Servidores da Polícia Científica de São Paulo (Celso Perioli e Norma Bonaccorso) respondem na ação pela quebra da responsabilidade de realizar exames de DNA nas ossadas. Esses profissionais se contradisseram perante o MPF e as famílias dos desaparecidos, afirmando inicialmente que dispunham da tecnologia para assumir a realização dos exames e, posteriormente, informando que não poderiam realizá-lo. Essa postura atrasou em diversos anos a identificação de algumas ossadas.
Para o MPF, a Justiça Federal deve declarar que esses profissionais são responsáveis pessoalmente pela não-conclusão dos trabalhos de identificação da ossada de Perus, especialmente pela demora na identificação dos restos mortais de Flávio Carvalho Molina e Luiz José da Cunha. Os cinco, avalia o MPF, devem ser condenados a indenizar a sociedade, na medida de suas responsabilidades em até 5% de seu patrimônio, ou a prestarem serviços não-remunerados em instituições de promoção dos direitos humanos.
ATUAÇÃO DO MPF EM BUSCA DO DIREITO À MEMÓRIA E À VERDADE – As novas ações foram propostas pela procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, atual responsável pelo Inquérito Civil Público 06/99, aberto para apurar a demora na identificação das vítimas da Ditadura enterradas no cemitério de Perus, e pelo procurador Regional da República, Marlon Alberto Weichert, que abriu o inquérito, a partir de  uma representação do grupo Tortura Nunca Mais. Também assinam a ação o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, e a procuradora da República Adriana da Silva Fernandes.
Foi no âmbito do ICP que o MPF-SP pautou sua atuação em busca do direito à memória e à verdade sobre os fatos ocorridos na ditadura militar, e ajuizou, em maio de 2008, ação de responsabilização contra os ex-comandantes do Doi-Codi, o maior aparato da repressão no Estado de São Paulo, Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Maciel.
O processo do Doi teve a tramitação suspensa até o julgamento de uma ação proposta pela OAB no Supremo Tribunal Federal contestando a constitucionalidade da lei brasileira de Anistia, de 1979, usada como argumento na Justiça para travar iniciativas em busca da apuração da verdade em relação ao período.
Tribunais superiores da Argentina, Chile e Peru, acatando decisões de cortes internacionais, consideraram leis semelhantes destes países como auto-anistias e o sistema judicial desses países começou a processar casos de desaparecimentos  orçados e assassinatos praticados pelas Ditaduras contra opositores.

Em 2004, para tentar suprimir a ausência do Estado e da União, o MPF passou a comandar os esforços para identificação, acionando a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, que contratou laboratório que identificou os restos mortais de Flávio de Carvalho Molina (2005), Luiz José da Cunha (2006) e de Miguel Sabat Nuet (2008), confrontando material genético dos ossos com novas amostras de material genético de seus familiares.

O MPF ainda tem procedimentos visando a identificação de mais cinco militantes políticos mortos pela Ditadura Militar, em cooperação com a Comissão de Mortos e Desaparecidos, da atual direção do Departamento de Antropologia do IML e do Departamento de Cemitérios do Município de São Paulo. Eugênia e Weichert atuam com exclusividade na área cível. As implicações criminais dos fatos tratados nas ações civis já ajuizadas dependem, ainda, de iniciativas da área penal do Ministério Público Federal.

Weichert e Eugênia defendem que o Brasil não precisa modificar a lei da Anistia para punir os crimes cometidos por agentes da ditadura militar, pois, entre outros motivos, tais ilícitos são crimes contra a humanidade. Para ambos, os instrumentos jurídicos disponíveis hoje são suficientes, uma vez que os crimes de tortura, morte e seqüestro cometidos por agentes do Estado não foram anistiados, mas apenas os crimes de natureza política.

A ação do MPF em busca da Memória e a Verdade não se concentra apenas em São Paulo. No Distrito Federal tramita ação, com atuação do MPF-DF e do MPF-PA, para identificar guerrilheiros e moradores da região do Araguaia, mortos na  ofensiva do governo para exterminar a guerrilha, na década de 70. No Rio Grande do Sul, o MPF abriu ICP para que sejam apuradas as reais circunstâncias da morte do presidente João Goulart, na Argentina, em 1976.

Saiba mais sobre a atuação do MPF-SP em relação à Ditadura aqui

fonte: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=23141


SALVE GERAL GERA PROTESTO NO CINEMA

Posted by Editorial do Outubro | Posted in Contra ou Cultura!!!, Movimento Negro | Posted on 01-10-2009

Tags:, , ,

1

No dia de estréia de Salve Geral nos cinemas nacionais, as mães, familiares e amigos das vítimas do massacre de maio de 2006 vão para a frente do espaço Unib(r)anco para protestar contra a espetacularização de seus sofirmentos e para reivindicar justiça e apuração dos crimes atrozes cometidos pelas forças estatais.

Segue carta a ser distribuída durante o ato.

mãe de maio 2006

Ato Político-Cultural na estréia do filme “Salve Geral”

SALVE A VERDADE E A JUSTIÇA!!! O ESTADO NO BANCO DOS RÉUS!!!
CONTRA O GENOCÍDIO DA JUVENTUDE POBRE E NEGRA!!!

Sexta-feira, 02 de Outubro de 2009, às 18hs
em frente ao Espaço Unibanco de Cinema
(Rua Augusta, 1475 – próximo à esquina com a Av. Paulista)

— pedimos para que tragam velas, tambores, fotos e camisetas das vítimas históricas do
Estado Brasileiro (em particular das vítimas dos “Crimes de Maio” de 2006) —

“Nós não queremos saber de ficção, queremos saber da realidade!”
Débora, mãe de vítima dos ataques da polícia em maio/2006

02 de outubro de 2009. Aqui estamos mais um dia. E a história se repetindo como farsa trágica.
Nós seguimos sem ter nada o quê comemorar…
Nós, familiares, amigos e amigas das vítimas dos ataques da polícia durante uma das maiores
chacinas da história brasileira, os “Crimes de Maio” de 2006, não fomos ouvidos durante a
produção deste filme hollywoodiano que hoje é lançado sobre a nossa história: “Salve Geral”.
Não fomos consultados nem convidados pra mais essa festa que os homens armaram pra nos
convencer… Viemos contar nossa história real, que também daria um filme…
Há pouco mais de três anos, o chamado “estado democrático de direito”, por meio de seus
agentes policiais e pára-militares, promoveu um dos mais vergonhosos escândalos da história
brasileira. Durante o mês de maio de 2006, em uma suposta resposta ao que se chamou na
imprensa de “ataques do PCC”, foram assassinadas no mínimo 493 pessoas, entre mortos e
desaparecidos. Sendo que a imensa maioria delas – mais de 400 jovens negros, afro-indígenadescendentes
e pobres – executados sumariamente pela polícia militar do Estado de São Paulo.
Somos centenas de mães, familiares e amigos que tivemos nossos entes queridos assassinados
covardemente, e até hoje seguimos sem qualquer satisfação por parte do estado brasileiro: os
casos permanecem arquivados sem investigação correta para busca da Verdade dos fatos; sem
Julgamentos dos verdadeiros culpados (os agentes do estado brasileiro); sem qualquer
proteção, indenização ou reparação por parte do estado que nos tirou os nossos jovens. Um
estado que ainda insiste em nos sequestrar também o sentimento de Justiça!
O desprezo pela memória e pela história fez ainda que o dia de estréia deste filme “Salve Geral”,
feito com base na nossa dor e que deverá concorrer ao Oscar no ano que vem, coincidisse
também com outra data que é um marco emblemático da injustiça e da violência do Estado
Brasileiro contra seus próprios cidadãos pobres, indígena-descendentes e negros em particular.
Há exatos 17 anos, no dia 02 de outubro de 1992, os agentes policiais do Estado de São Paulo
protagonizaram uma outra matança em série, desta vez na Casa de Detenção de São Paulo,
covardemente contra pessoas sob a sua custódia: seres humanos sem qualquer possibilidade de
defesa. Um episódio sangrento que ficou conhecido como “Massacre do Carandiru” e que teve ao
menos 111 pessoas assassinadas por agentes policiais, segundo os números oficiais. Outro
crime em série do Estado Brasileiro que permanece sem investigações corretas, sem julgamento
ou condenação dos verdadeiros culpados – a começar pela alta cúpula do estado, Fleury e cia.
Sem qualquer reparação para as vítimas e seus familiares. Outro episódio que, no entanto, a
indústria cultural conseguiu fazer mais dinheiro em cima da dor das vítimas: produzindo filmes
espetaculares, séries televisivas, livros e outras mercadorias descartáveis. A Verdade e a Justiça
que é bom: mais uma vez não compareceram na estréia…

Relembramos hoje, portanto, que em apenas dois episódios sangrentos só aqui em São Paulo,
MAIS DE 600 VÍTIMAS POBRES E NEGRAS. Isso para não falar das violências e execuções
sumárias cotidianas que atingem sobretudo as periferias urbanas de todo país: uma pesquisa
divulgada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, UNICEF e Observatórios de Favelas,
no dia 21/07/2009, afirma que se as estatísticas permanecerem como estão, mais de 33.5 mil
jovens terão sido executados no Brasil no curto período de 2006 a 2012. Os estudos ainda
apontam que, os jovens negros apresentam risco quase três vezes maior de serem executados
em comparação com os brancos.
Tantos casos e números que são ainda mais impressionantes do que todos os absurdos
cometidos durante a ditadura civil-militar brasileira pelo mesmo estado brasileiro, só que agora
seus agentes matam em nome da “democracia” e da “segurança”. Casos com contornos de
crueldade que só mudam o endereço de região para região do país: a Chacina da
Candelária e de Vigário Geral no Rio de Janeiro (1993), o Massacre de Corumbiara em
Rondônia (1995), o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996), a Chacina da Baixada Fluminense
(2005), a chacina do Complexo do Alemão (2007) a chacina de Canabrava, de Plataforma e a
matança generalizada em Salvador na Bahia (2006-2009), entre outros tantos casos no dia-dia
do povo pobre brasileiro. A imensa maioria deles sem investigação correta, muito menos
punição dos seus verdadeiros responsáveis.
Nomes e números que jamais conseguirão traduzir o sentimento de perda e de dor irreparável
das famílias todas: repetimos para nos fazer ouvir que só aqui em São Paulo, durante estes dois
episódios de matança estatal (o “Massacre do Carandiru” e mais recentemente os “Crimes de
Maio de 2006″), foram mais de 600 famílias destruídas e outras milhares dilaceradas pela dor da
perda de seus entes queridos.

ESTAMOS AQUI PARA EXIGIR O FIM DO GENOCÍDIO CONTRA A CLASSE POBRE, A POPULAÇÃO
INDÍGENA-DESCENDENTE E NEGRA DO BRASIL!!!
ESTAMOS AQUI PARA EXIGIR O FIM DO CHAMADO “AUTO DE RESISTÊNCIA” ou “RESISTÊNCIA
SEGUIDA DE MORTE”, FARSAS LEGAIS QUE TEM INSTITUÍDO E DADO NA PRÁTICA O AVAL
PARA UM VERDADEIRO ESTADO DE SÍTIO NO BRASIL!!!
ESTAMOS AQUI PARA EXIGIR O DESARQUIVAMENTO E A FEDERALIZAÇÃO DAS
INVESTIGAÇÕES SOBRE OS ATAQUES DA POLÍCIA EM MAIO DE 2006, DURANTE OS “CRIMES
DE MAIO”!!!
ESTAMOS AQUI PARA EXIGIR QUE O ESTADO BRASILEIRO E SEUS AGENTES VÃO PARA OS
BANCOS DOS RÉUS!!!
ESTAMOS AQUI PARA EXIGIR A VERDADE E A JUSTIÇA HISTÓRICA SOBRE TODAS AS MORTES
COMETIDAS PELO ESTADO, E A PUNIÇÃO DE TODOS OS RESPONSÁVEIS!!!
ESTAMOS AQUI PARA EXIGIR VOZ, PROTEÇÃO, ASSISTÊNCIA, INDENIZAÇÃO E REPARAÇÃO A
TODAS AS FAMÍLIAS DE MORTOS E DESAPARECIDOS, SOBRETUDO PARA AS MÃES E
COMPANHEIRAS DE VÍTIMAS!!!
EM NOME DA MEMÓRIA DE NOSS@S FAMILIARES E NOSS@S AMIG@S
MORT@S OU DESAPARECID@S PELO ESTADO BRASILEIRO
“MÃES DE MAIO” DA ASSOCIAÇÃO AMPARO DE FAMILIARES E VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA

Mais informações: www.maesdemaio.blogspot.com

Chega de chacina, polícia assassina!

Posted by edutiao | Posted in política institucional | Posted on 22-04-2009

Tags:, , , , , ,

0

Janeiro, 2009
Por Ali Rocha e José Andery, pelo Tribunal Popular

tribunal-popular_logoEm pleno processo de Fórum Social Mundial (FSM) a violência estatal contra jovens pobres e negros da região metropolitana de Belém (PA), só fez crescer. Conversamos com a ouvidora do Sistema de Segurança Pública do Estado do Pará, Cibele Kuss, que está à frente do órgão desde meados de 2007, e vem notando um aumento expressivo na letalidade policial desde o início deste ano. Entre as causas do problema ela aponta a política de enfrentamento defendida abertamente pelas autoridades de segurança do estado, a apologia a essa prática feita pela grande imprensa e o apoio da sociedade ao uso da violência no combate à criminalidade.

A ouvidoria está acompanhando em torno de 13 homicídios ocorridos nas primeiras seis semanas de 2009 e 90% dos casos apresentam características de execuções sumárias. Cibele vê uma verdadeira criminalização da pobreza já que todas as vítimas executadas moram em bairros de periferia. Ela defende que os órgãos de controle, a sociedade civil e os movimentos sociais trabalhem em conjunto para que um outro mundo seja, de fato, possível.

Você disse que o número de denúncias teve um aumento expressivo desde que assumiu o cargo na ouvidoria?

Sim, tivemos um aumento de 300% nas denúncias, mas o que mais nos assusta é o aumento dos casos de letalidade. Você tem gerações inteiras de policiais militares e civis formados nessa perspectiva de que bandido bom é bandido morto. Aí vem os secretários de segurança pública, os comandantes, os delegados gerais, falando abertamente que a nossa política é repressiva e de tolerância zero. Imagine o que um praça com uma arma na mão, recém saído de seu treinamento, vai fazer com essas armas. Ele está ouvindo tolerância zero, repressão ao crime, imagina… a primeira oportunidade que ele tiver, por uma questão até mesmo de falta de preparo, ele vai acabar cometendo homicídios. Então essa é uma preocupação muito grande.”

Qual o caso recente que você considera mais emblemático?

“Um deles é a Chacina de Curuçambá. A poucos dias do início do FSM um cabo da policia militar foi assassinado durante um assalto em Ananindeua, bairro da periferia de Belém. A PM montou uma operação na área para encontrar os assassinos do policial. Cinco pessoas acabaram mortas na operação, que recebeu o nome de “Reação”. Eles não conseguiram nem mascarar o propósito dessa operação”.

Como a imprensa se posiciona em relação a essas mortes?

“Aqui no nosso estado esses jornais aqui cujas páginas policiais são um derramamento de sangue extremamente sensacionalistas, fazem uma apologia diária à letalidade porque as manchetes são sempre positivas no que diz respeito a letalidade, dizendo coisas como “Mais um bandido fora de circulação”. Então dá a entender que a única forma de acabar com o crime é através da letalidade. E a imprensa acaba reforçando essa tese de que quando um policial mata uma pessoa, se ela for assaltante ou se ela tiver antecedentes criminais, está legitimado.

Esses criminosos, na verdade, deveriam ser presos e julgados…

Sim, isso só aumenta a violência, pois se alguém que tem envolvimento com o crime sabe que não vai passar por um processo jurídico normal, que não vai ser preso, que não vai responder um processo, é óbvio que a letalidade deles também vai aumentar. Você tem um fogo cruzado com um tentando matar o outro. O bandido querendo matar o policial e o policial tentando matar o bandido. E no meio estão todas as outras pessoas.”

E como é a investigação desses casos?

Esses confrontos que aparecem diariamente nos jornais, que nós muitas vezes suspeitamos que aja envolvimento de policiais, raramente são investigados, porque os inquéritos quando saem das delegacias colocam normalmente um auto de resistência seguida de morte, então quando chega no judiciário o judiciário arquiva, porque o réu está morto. Não sai como homicídio… deveria sair como homicídio! Auto de resistência é uma coisa, tem um embasamento legal, mas auto de resistência seguida de morte é uma invenção da policia para realmente mascarar as execuções ocorridas e isso é realmente muito comum. Para impossibilitar a perícia e dificultar ainda mais as investigações os policiais violam a cena do crime, retirando o corpo mesmo quando a pessoa já está morta, colocam dentro da viatura e levam para o hospital e desaparecem com as armas e balas.”

E qual o papel da sociedade civil nisso tudo?

“Primeiro nós temos que conscientizar a sociedade em geral de como funciona esse jogo das execuções sumárias, e de como nós somos coagidos também e de como nós somos levados a acreditar que aquilo realmente foi um confronto porque como aparece muitas vezes na imprensa é que foi um confronto, mas, as pessoas em geral não sabem como funciona isso. O outro grande desafio está nesse processo de monitoramento dos casos de letalidade. Esse monitoramento é responsabilidade da sociedade civil também. Ela deve se organizar e dizer pros corregedores, pro judiciário, “Olha, nós estamos aqui acompanhando estes casos e nós queremos que essa investigação seja feita com transparência”.

E as vítimas dessa letalidade policial são em geral homens pobres e negros…

E muito jovens, na adolescência ou início da fase adulta. E é realmente esse extermínio da população negra que é impressionante, esse eixo da cor é taxativo. Você identifica que são essas pessoas que estão mais distantes das políticas públicas de inclusão social. Elas são realmente as maiores vitimas. E são as mulheres que ficam viúvas, que ficam órfãs de filho, que vem procurar a ouvidoria. Na maioria das vezes são as mães que já tiveram outros filhos também assassinados pela policia ou mortos em algum outro tipo de crime, mas que é consecutivo, a historia dessas famílias é marcada por essa violência, por essas tragédias. É impressionante.”

Você acredita que o mesmo aconteceria se as vitimas fossem da classe média?

“Quando houve o assassinato agora recente de algumas pessoas cujas referências profissionais eram publicas – médico, procurador, você teve um apelo e um direcionamento muito grande da classe média – imprensa chamava para caminhadas, para passeatas pela paz, havia realmente uma pressão eu diria até financeira sobre o governo para que tomasse providências porque pessoas de bem morreram. Enquanto que todas as mobilizações que nós fazemos, quando há casos de violência contra crianças e adolescentes ou assassinatos de jovens da periferia, você tem realmente um abandono total. Aí a sociedade se manifesta mesmo com indiferença ou publicamente dizendo que estão ai defendendo os bandidos novamente.”

A nossa sociedade então está dividida em cidadãos de 1a e 2a classe?

“Isso ficou muito explicito. Muito explicito o quanto a classe média é hipócrita, e como as elites ainda tem o poder de conduzir os comandos da segurança publica no nosso estado. Devemos falar mais abertamente sobre essa hipocrisia de poder dizer que esses mandos e desmandos estão ligados a uma classe social muito branca, muito rica, muito detentora dessas cotas na política e que isso tem um reflexo muito grande mesmo na sociedade, a estigmatização de grupos, de pessoas, da juventude, principalmente da juventude negra e trabalhar mesmo em processos de formação, de capacitação da juventude”.

Como funciona o corporativismo na policia?

É uma situação muito difícil também para os próprios policiais militares e civis que ainda possuem um pouco de dignidade e amor a farda, porque manter-se digno e fiel a essa profissão é um exercício diário de resistência, e nós temos que dar todo apoio para aqueles policiais que tem um envolvimento nesse compromisso. Nós tivemos casos aqui de policiais que nos procuraram dizendo que estavam sendo ameaçados pelos próprios colegas. Teve um policial militar cujo afilhado de 16 anos foi morto por policiais. Ele foi até o local do crime e por ter se recusado a cumprimentar os policiais que ali estavam, imediatamente depois passou a sofrer ameaças. Ele confessou que hoje tem mais medo da policia do que de bandidos e isso me chocou muito. Em outro caso, policiais foram acionados para impedir um linchamento de dois assaltantes por moradores da comunidade. Quando foram atender a ocorrência, descobriram que os dois rapazes haviam assaltado uma mercearia onde seus colegas de farda faziam bico de segurança e que teriam sido os próprios policiais a incitar o linchamento. Depois disso, passaram a ser perseguidos por esses colegas.”

O judiciário também contribui para a impunidade dos policiais?

“Os inquéritos já saem das delegacias com muita fragilidade e o judiciário não se manifesta em relação a isso, então obviamente nós vamos ter um resultado muito ruim. Muitas vezes a gente encontra promotores que solicitam no processo já de investigação que mude delegado, que fazem algumas articulações para que se coloque lá um delegado ou uma delegada que possa presidir esse inquérito, que seja uma pessoa menos comprometida, que tenha mais autonomia. Mas aí depende muito do comprometimento do promotor que está acompanhando aquele caso. E a isso a gente precisa dar valor. Mas na maioria dos casos não tem, o judiciário está completamente absorvido com a quantidade de processos que tem e devolve esses inquéritos para que aja uma melhor investigação. Muitas vezes nem identifica as falhas no inquérito. E acaba absolvendo os policiais.”

policiamata

E como o que a ouvidoria pode fazer sobre isso?

“A ouvidoria tem que ter um papel mais ativo no monitoramento da investigação dos casos. Em muitos casos que estamos acompanhando, estamos em diálogo direto com o promotor justamente pra fazer um trabalho em conjunto, para verificar como foi construído esse inquérito, quais foram as falhas encontradas e o que a gente ainda pode voltar atrás para verificar. Acho que esse é um trabalho fundamental da ouvidoria, se nós conseguirmos sistematicamente fazer esse tipo de coisa pelo menos nos casos mais emblemáticos, teremos um avanço.”

O que dizer de uma ouvidoria que recebe uma denúncia e simplesmente a encaminha para a corregedoria, sem fazer nenhum acompanhamento?

Aí vamos fechar as portas! Se a ouvidoria se reduzir a mandar um documento para a corregedoria, pode fechar a porta porque, para isso não precisa ter ouvidoria, pra isso qualquer pessoa pode fazer, se é só pra mandar um oficio solicitando, não tem função nenhuma. Nós temos que realmente monitorar. Isso significa sentar com o corregedor, isso significa ir até a delegacia, conversar às vezes com o delegado, perguntar que tipo de investigação é essa, porque muitas vezes a gente vai até a corregedoria e a pessoa encarregada pelo casos diz, “Não, mas eu fui lá, eu investiguei, eu fui lá, eu verifiquei”. Mas como é que as outras quatro pessoas viram coisas diferentes? Aí você fazendo contato com as pessoas envolvidas, vai tendo intuições e vai descobrindo coisas no decorrer dessa aproximação. A ouvidoria tem que ter proximidade das pessoas, dos casos, para conseguir contribuir.”

Muitas pessoas não fazem denúncias por receio de que nada será feito.

“É que essa situação se parece tão institucionalizada que as pessoas se vêem desestimuladas a denunciar, ou desistem no meio do processo, por acreditar que será uma perda de tempo. Mas um bom monitoramento dos órgãos de controle é essencial para trazer bons resultados. Temos que acreditar que é possível mudar esse quadro e apontar os erros e manipulações. É fundamental que a gente consiga identificar ao final do processo todo, que aquilo aconteceu porque essa ainda é uma prática, por esse ou aquele motivo. Se nós não dermos pelo menos visibilidade a isso, de que aconteceu esse resultado porque houve uma série de comprometimentos no decorrer, aí nós estaremos totalmente omissos”.

Você acha que uma polícia comunitária ajudaria a resolver o problema?

“Sim, eu acredito que esse programa de formação de segurança comunitária, de segurança cidadã, de policia comunitária tem um eixo temático muito interessante, eu acho que é realmente fundamental. Você inverte realmente a lógica daquele policial frenético, enlouquecido, com armas na mão dentro de um carro enlouquecidamente, sem se relacionar com ninguém, para um policial que realmente caminha, para tal da policia de proximidade. Mas pra que isso realmente aconteça você tem que ter uma conjuntura, um contexto preparado para isso, porque nas periferias e em algumas áreas as pessoas não querem essa policia. A classe média não quer essa policia, a elite não quer essa policia. A elite quer a policia que afaste as pessoas de perto delas, que afaste os pobres, que afaste aquele que chega para pedir alguma coisa, porque ela morre de medo de que alguém que bate no vidro do seu carro, vai assassiná-lo.

Os policiais continuam matando porque sabem que continuarão impunes?

“Temos que fazer uma série histórica de punições aos policiais violadores de direitos humanos. As punições exemplares são fundamentais porque repercutem internamente dentro das corporações. Elas tem uma força enorme de criar novos referenciais, de realmente instaurar uma política pautada na ética. Na maioria das vezes policiais infratores não são punidos nem administrativamente. Quando o são, uma semana depois já estão soltos e duas semanas depois já estarão divididos em outros lugares. Acho que esse é um grande desafio nosso, verificar que tipo de punição exemplar eles estão realmente fazendo.

O que se verifica aqui e acolá é alguma punição noticiada por algum órgão de imprensa, para afirmar que a o estado está punindo seus filhos. Mas e depois? Essas manchetes não tem fundamentação, são apenas manchetes para aquietar a sociedade civil organizada e para nos enganar.”

Alguma consideração final?

A classe média, a elite, tem medo das crianças nos faróis, nas paradas por ai pedindo. Acho que a gente tem que ter coragem de falar mais abertamente sobre isso. E de trabalhar mais pra autonomia dos nossos órgãos, para que eles realmente possam trabalhar mais numa perspectiva de que a política de segurança publica tem que ter equidade. Uma política de segurança publica que não tiver equidade, sempre vai matar mais juventude negra e fazer cada vez mais segurança privada e segurança nos bairros ricos.