Informe:

SERRA USA MÁQUINA DO GOVERNO DO ESTADO PARA FAZER SUA CAMPANHA ELEITO

Saiu hoje no jornaleco da família Frias o que quem escuta rádio e assiste a televisãojá sabia faz tempo: que o Serra multiplicou os gastos em campanha publicitária do governo estadual para encorpar a sua camapanha presidencial, violando frontalmente a legislação eleitoral vigente. É o de praxe:...

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SEMINÁRIO INTERNACIONAL GUERRA E HISTÓRIA

Posted by rafah | Posted in Contra ou Cultura!!!, Educação, Imperialismo | Posted on 20-07-2010

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Divulgamos evento aberto que acontecerá na USP e discutirá a construção do mundo contemporâneo através das inúmeras guerras que pontuaram nossa história. Destacamos como de principal interesse duas mesas do dia 30 de setembro, uma sobre as guerras de libertação nacional – com a participação do professor de história da USP e militante do PSOL, Sean Purdy – e outra sobre as guerras atuais, o imperialismo e o terrorismo – com a participação de Plinio de Arruda Sampaio Jr. (filho de nosso candidato a presidente) e de Paulo Arantes (verdadeiro exemplo de intelectual engajado na luta dos oprimidos).

Aproveite!



GUERRA E HISTÓRIA

Simpósio Internacional

28 a 30 de setembro de 2010   –   Departamento de História (USP)

PROGRAMAÇÃO (AH: Anfiteatro de História – AG: Anfiteatro de Geografia)

28 de setembro (terça feira)

10 h. Conferência Inaugural: “GUERRA JUSTA” E CONSTITUCIONALISMO EUROPEU: Mario Fiorillo (Università di Teramo) (AH)

14 h. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E A AMÉRICA LATINA: Roney Cytrynowicz, Maria Helena Capelato, Rodrigo Medina Zagni, Alfredo Salun (AH)

14 h. PAZ E VIOLÊNCIA NA IDADE MÉDIA: Marcelo Cândido da Silva, Neri de Barros Almeida, Maria Cristina Pereira, André Pereira Miatello (AG)

17 h. GUERRAS NA ERA MODERNA E ESPAÇO MUNDIAL: Henrique Carneiro, Rodrigo Ricupero, Pedro Puntoni, Marco Antonio Silveira (AH)

17 h. A GUERRA CIVIL AMERICANA E OS EUA DE HOJE: Leandro Karnal, Everaldo Andrade, Jorge Grespan, Maria Helena P. T. Machado (AG)

19:30 h. GUERRAS PÓS-COLONIAIS NA ÁFRICA SUBSAARIANA: Kabenguelé Munanga, Raphael Bicudo, Leila Hernandez, Marina Gusmão de Mendonça, Valério Arcary (AH)

19:30 h. GUERRA MUNDIAL E HOLOCAUSTO ATÔMICO NO JAPÃO: Takashi Morita [sobrevivente de Hiroshima], Marcia Yumi Takeuchi, Nadia Saito, Fernanda Torres Magalhães, Sedi Hirano (AG)

29 de setembro (quarta feira)

10 h. GUERRA FRIA E ECONOMIA ARMAMENTISTA: Gilson Dantas, Angelo Segrillo, Pablo Rieznik, Joaquim Racy (AH)

10 h. CAPITALISMO AMERICANO E ECONOMIA DE GUERRA: Vitor Schincariol, Osvaldo Coggiola, José Menezes Gomes, Eduardo Perillo, Luiz E. Simões de Souza (AG)

14 h. GUERRA, GEOGRAFIA, GEOPOLÍTICA: Leonel Itaussu A. Mello, Wanderley M. da Costa, André Martin, Antonio Carlos Robert de Moraes (AH)

14 h. PAZ E GUERRA NO IMPÉRIO PORTUGUÊS: Ana Paula Torres Megiani, Márcia Berbel, Iris Kantor, Vera Ferlini (AG)

17 h. GUERRAS MUNDIAIS E GENOCÍDIOS: Samuel Feldberg, Pietro Delallibera, Ania Cavalcante, Heitor Loureiro (AH)

17 h. A GUERRA DO PARAGUAI E OS ESTADOS SUL-AMERICANOS: André Toral, José Aparecido Rolón, Gilberto Maringoni (AG)

19:30 h. GUERRA DE GUERRILHAS E DITADURA MILITAR NO BRASIL: Ivan Seixas, Carlos Eugenio Clemente, Antonio Roberto Espinosa, Arthur Scavone, Wilson N. Barbosa (AH)

19:30 h. GUERRA E REVOLUÇÃO NA FRANÇA JACOBINA: Carlos Guilherme Mota, Priscila Correa, Miguel Nanni, Modesto Florenzano (AG)

30 de setembro (quinta feira)

10 h. GUERRA E CINEMA: Marcos A. Silva, Wagner Pinheiro Pereira, Maurício Cardoso, Alexandre Hecker (AH)

10 h. A GUERRA CIVIL ESPANHOLA: CLASSES, POLÍTICA, LITERATURA: Francisco Palomanes, Valeria De Marco, Antonio Rago, Ana Lúcia Gomes Muniz (AG)

14 h. GUERRAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (África Portuguesa, Oriente Médio, África do Norte): Lincoln Secco, Arlene Clemesha, Nina Cerveira, Marcos Napolitano, José Arbex (AH)

14 h. GUERRA NOS BÁLCÃS E PARTIÇÃO DA IUGOSLÁVIA: Tibor Rabóczai, Zeljko Loparic, Aleksandar Jovanovic, João Zanetic (AG)

17 h. GUERRA TENENTISTA E INSURREIÇÃO COMUNISTA NO BRASIL: Marly Gomes Vianna, Paulo Cunha, Yuri Costa, Pedro Pomar (AH)

17 h. GUERRAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (Vietnã e Indochina, China, Cuba): José R. Mao Jr, Sean Purdy, Antonio Gouvea, Silvia Miskulin (AG)

19:30 h. GUERRAS DE HOJE, IMPERIALISMO, TERRORISMO: Jorge Altamira, Plínio de Arruda Sampaio Jr, Paulo Arantes, Peter Demant (AH)

19:30 h. GUERRAS NA AMÉRICA DO SUL NO SÉCULO XIX: Manoel Fernandes Souza Neto, Airton Cavenaghi, Márcio Bobik, Horacio Gutiérrez (AG)

Comissão Organizadora: Osvaldo Coggiola, Vera Ferlini (Cátedra Jaime Cortesão), Maria Cristina Cacciamali (Prolam-USP), Jorge Grespan, Lincoln Secco, Rodrigo Ricupero. Inscrições: Cátedra Jaime Cortesão (30911511), Prolam-USP (30913589). Inscrições por e-mail: www.fflch.usp.br/dh/guerra. Serão fornecidos certificados de freqüência (30 horas). Entrada Franca.

AH = Auditório da História

AG = Auditário da Geografia

Ambos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP


CARREFOUR E PM RACISTAS

Posted by Editorial do Outubro | Posted in Movimento Negro | Posted on 19-08-2009

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Divulgamos aqui o caso de racismo e violência que atingiu um funcionário da USP no estacionamento do Carrefour em Osasco. O homem por ser negro foi tomado por bandido, espancado e torturado pelos seguranças do mega-mercado. A polícia chegou e completou o quadro com mais atrocidades racistas e negação de socorro. E depois falam que não existe racismo no Brasil, que somos todos iguais… piada de mal gosto.

racismo

Homem negro espancado, suspeito de roubar o próprio carro
Por: Redação – Fonte: Afropress – 13/8/2009

http://www.afropres s.com/noticiasLe r.asp?ID= 1965

S. Paulo – Tomado por suspeito de um crime impossível – o roubo do seu próprio carro, um EcoSport da Ford – o funcionário da USP, Januário Alves de Santana, 39 anos, foi submetido a uma sessão de espancamentos com direito a socos, cabeçadas e coronhadas, por cerca de cinco seguranças do Hipermercado Carrefour, numa salinha próxima à entrada da loja da Avenida dos Autonomistas, em Osasco. Enquanto apanhava, a mulher, um filho de cinco anos, a irmã e o cunhado faziam compras.

A direção do Supermercado, questionada pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP, afirma que tudo não passou de uma briga entre clientes.

O caso aconteceu na última sexta-feira (07/08) e está registrado no 5º DP de Osasco. O Boletim de Ocorrência – 4590 – assinado pelo delegado de plantão Arlindo Rodrigues Cardoso, porém, não revela tudo o que aconteceu entre as 22h22 de sexta e as 02h34 de sábado, quando Santana – um baiano há 10 anos em S. Paulo e que trabalha como Segurança na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, há oito anos – chegou a Delegacia, depois de ser atendido no Hospital Universitário da USP com o rosto bastante machucado, os dentes quebrados.

Ainda com fortes dores de cabeça e no ouvido e sangrando pelo nariz, ele procurou a Afropress, junto com a mulher – a também funcionária do Museu de Arte Contemporânea da USP, Maria dos Remédios do Nascimento Santana, 41 anos – para falar sobre as cenas de terror e medo que viveu. “Eu pensava que eles iam me matar. Eu só dizia: Meu Deus”.

Santana disse pode reconhecer os agressores e também pelo menos um dos policiais militares que atendeu a ocorrência – um PM de sobrenome Pina. “Você tem cara de que tem pelo menos três passagens. Pode falar. Não nega. Confessa, que não tem problema”, teria comentado Pina, assim que chegou para atender a ocorrência, quando Santana relatou que estava sendo vítima de um mal entendido.

Depois de colocar em dúvida a sua versão de que era o dono do próprio carro, a Polícia o deixou no estacionamento com a família sem prestar socorro, recomendando que, se quisesse, procurasse a Delegacia para prestar queixa.

PESQUISA, INDÚSTRIA E GUERRA

Posted by Editorial do Outubro | Posted in Criminalização do Movimento, Imperialismo | Posted on 12-08-2009

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Divulgamos aqui o texto de Douglas Anfra publicado em http://universidadeparaquem.wordpress.com sobre as articulações entre pesquisa científica, mercado internacional e indústria bélica. Trata-se de uma análise acurada sobre algumas das atuais condições de funcionamento do capitalismo: o imperativo de inovação tecnológica, um novo mercado internacional neocolonialista e a guerra sistemática como instrumento de produção e destruição de riquezas. Boa leitura!

soldado armas nao letais

Pesquisa, mercado e indústria bélica

“A indústria não perde o seu caráter de indústria por se destinarem os seus produtos a destruir e não a criar os objetos”
Engels

Por Douglas Rogério Anfra*

A universidade pode ajudar a começar diálogos ou a encerrá-los. Pode também escamoteá-los, como bem pode fazer a crítica da violência, ou fazer esta crítica de modo abstrato e, assim, ajudar a violência concreta a se manifestar como repressão e até mesmo guerra.

Há uma relação entre pesquisa e indústria bélica em muitos países, no Brasil este projeto parecia abortado em prol de uma relação estrita entre mercado e pesquisa, o que descartaria a indústria bélica como desinteressante pois só produziria mercadorias monopsônicas, isto é, de um único comprador, o Estado. Além disso, os interessados em produzir tais mercadorias, muito caras e arriscadas de serem desenvolvidas e, principalmente, vendidas, devem competir contra grupos diversos com influência e sob supervisão do Estado. Isto contradiria os interesses de desmonte do Estado vindas do bloco neoliberal, que sairia do apoio ao regime para compor os movimentos contra o regime, condenando como estritamente militar e estatal o regime político com o qual compactuavam até então. Um sinal deste período talvez seja o aterramento do silo de testes de artefatos bélicos nucleares na Serra do cachimbo por Fernando Collor, na fronteira do então Mato Grosso com o Pará.

Junto com o impulso pelo desmonte do estado vinha a carapaça de democracia [1] dos liberais. Mas, caso perguntem-se porquê os militares deitariam fora  seus sonhos de potência, se com a transição para a democracia perderam tão pouco institucionalmente, e talvez tão somente o cargo de gestores do estado (inclusive sem assumir que seus antigos parceiros, os empresários e, principalmente, os EUA, haviam lhes passado a perna com o aumento do valor do dólar, prejudicando-os pelos os empréstimos que faziam resultando na maior divida externa da história, mas que descaradamente imputavam ao governo Kubitschek). Era óbvio com este resultado que as iniciativas estratégicas iriam para o ralo, ou melhor, seriam dadas a preço de banana para os EUA, incluindo o projeto de armas atômicas, com cientistas sendo transferidos para lá.

No entanto, mais sinais estranhos da persistência deste impulso permaneceriam, como o convênio do Ministério da Defesa com o CNPq. Um professor da USP teria saído da comissão, no início do governo Lula, a título de protesto. Não deu em nada publicamente (o que não ia acontecer de qualquer modo, pois há sigilo nesta área que envolve defesa nacional). Para deixar de imaginar que a indústria bélica desaparece, o que se deve saber é que, como mostra um pesquisador da geografia, existe o que chamam em defesa de indústria bélica de reserva que serviria como uma indústria bélica de última instância, isto é, um parque industrial civil pode se tornar bélico (ou indústria civil militarizada) e vice-versa (caso da Embraer), por isso o parque industrial do ABC foi fundado, em seu arranjo, por milicos como em muitos outros parques industriais do mundo, inclusive o alemão.

Mesmo que o pressuposto de um princípio de organização centralizada (ou planificada) esteja muitas vezes disfarçado, ele pode ser identificado pela logística da disposição das vias de transporte e abastecimento de energia. Weber também mostrava como o princípio de organizações sociais controladas desdobra-se com facilidade da instituição militar, inclusive no caso da burocracia. Uma organização específica que necessita de um meio sobre o qual se articula, permitindo o controle do que se estabelece sobre este meio por um outro que determina sua organização. No caso brasileiro isto se reflete na própria estrutura da pesquisa, como mostra o CNPq (citamos como exemplo que pode ser estendido a outras instituições), fundado por militares que imbricaram propositadamente pesquisa e defesa como mostra o professor Shozo Montoyama:

“O grande artífice do processo foi o almirante Álvaro Alberto. O Instituto de Física Teórica, que teve um papel importante no desenvolvimento da física no Brasil, foi fundado com a ajuda e apoio de generais do exército como o Marechal Lott. Assim, no período do regime militar no Brasil, negro para nós do ponto de vista político e democrático, foi quando ocorreu um maior investimento em C&T. O governo que mais investiu em Ciência e Tecnologia foi o de Geisel. Os militares ficaram realmente muito interessados em ciência e perceberam também a relação existente entre desenvolvimento e ciência. Eles ainda encaravam a segurança nacional e militar como estando muito relacionada com a questão do desenvolvimento. Ou seja, um país desenvolvido economicamente também teria uma segurança nacional maior do que um país subdesenvolvido. Também com essa lógica eles investiram bastante em C&T pensando em desenvolver a própria economia do país e não no desenvolvimento militar propriamente dito.” [2]

Para comparar com outros lugares, vejamos os EUA, por exemplo, como mostrou o pesquisador Barton C. Hacker [3] (mas também Victor Perlo em Militarismo e Indústria) através de alguns casos exemplares como o da tecnologia nuclear e aeroespacial (e derivados como as roupas e materiais desenvolvidos para estes fins), onde há um intercâmbio entre pesquisa universitária e militar. Normalmente a tecnologia começava na área militar e se transferia para a civil num prazo, em geral, de 10 anos (período em que se dissemina quase que inevitavelmente na área militar, tornando-a inócua do ponto de vista estratégico) até que se tornasse um produto no mercado reconhecido pelos consumidores que findam por comprá-lo.

Claude Serfati [3] mostra que hoje, com as tecnologias de análise de informação da área de defesa, começaria a haver um desenvolvimento simultâneo que envolveria a tecnologia militar em conjunto com corporações civis, como as corporações da área de telecomunicação (ou outras que seriam mistas como a Blackwater, empresa de mercenários modernos que se articula em torno de um lobby no Congresso dos EUA, como mostra o livro de Jeremy Scahill). Seu uso foi mostrado por Paul Virilio em Estratégias da Decepção onde ele denunciava a lógica por trás dos “erros” e “acidentes” dos bombardeios “cirúrgicos”, como na intervenção da ONU na guerra dos Bálcãs.

O que estava em questão não era a precisão, pois os EUA muito provavelmente bombardeavam civis como em qualquer outra intervenção em guerras civis [4], posto que a tática de combate a guerrilhas ou formações militares com inserção local, isto é, amparada em posicionamento defensivo e nativo envolve o bombardeio sistemático em carpete (com bombas menores espalhadas em áreas concentradas de modo preciso) como a Legião Condor da Luftwaffe inaugurou na Guerra Civil Espanhola (um caso famoso é Guernica) e os EUA utilizaram sucessivamente no Japão, incendiando em média 40 a 60% das cidades, ou como Dresden na Alemanha, Vietnã, etc. O que envolve estes bombardeios é uma configuração múltipla que passa, principalmente, pela aterrorização da população civil, evitando que se reorganizem e fazendo com que se rompam os vínculos sociais e comunitários.

Na verdade, segundo Virilio e outros, o que ocorreu nos Balcãs foi um episódio que se explicaria como um confronto dos EUA contra os próprios aliados da ONU. Tal evento ocorreria para demarcar que, a partir de então, qualquer conflito em solo europeu passaria a depender do aval dos EUA, o que seria garantido pela demarcação da órbita da Terra pelas novas tecnologias de informação que, desenvolvidas igualmente para aplicação militar e civil, mostravam que quem fosse a vanguarda nestas novas fronteiras estaria garantido militarmente contra os demais concorrentes, em especial os franceses.

Este raciocínio estratégico que se mostrou limitado por conta do sistema antiaéreo russo que persiste com capacidade de resposta, de uma tecnologia bélica chinesa que se desenvolvia, ou ainda, como mostra Frederick Kagan [5], dos recursos e custos humanos, sociais e políticos para a guerra que implicavam no progressivo envolvimento em esforços de guerra difíceis de justificar de outro modo que a tentativa falida da era Bush da criação de um império. Perguntamos então como seria possível  a partir daí o desenvolvimento de uma tecnologia simultaneamente civil e militar que utilize institutos de pesquisa universitários e, mesmo nos EUA, composto muitas vezes por pessoas progressistas e contrárias a umimpulso diretamente militar?

A resposta existe graças à fragmentação da pesquisa em órgãos recortados em processos de análise e objetivos limitados, mesmo nas pesquisas básicas, o que garantiria que não se pudessem visualizar os objetivos mais gerais de uma dada área de pesquisa. Também facilitaria a pressa em prazos e ditames burocráticos criados pela própria instituição, que priorizam um resultado abstrato contra um conteúdo desenvolvido. Por exemplo, pensemos no caso de alguém que analisa as propriedades de um determinado composto que reaja produzindo um polímero útil de tal modo que pudesse se transformar no isolamento no interior de uma cápsula que separe reagentes, num recipiente plástico ou numa superfície lisa. Esta pessoa, cobrada em prazos e resultados abstratos que determinariam o início e o fim da pesquisa, pouco quer saber e se eximiria de responsabilizar-se ao final da pesquisa se isto será uma boneca ou uma bomba.

Este mesmo problema será transferido posteriormente ao processo de produção, como bem mostra Harum Farocki no filme o Fogo que nunca acaba, como quando os técnicos que trabalham em desenvolver processos que resultam em bombas incendiárias de Napalm [6] no Vietnã na filial alemã da Dow Chemicals, ignoram as conseqüências do que fazem vendo suas ações como civis e pacíficas, como quando assistem na televisão horrorizados os bombardeios de Napalm sobre as vítimas [7]. De modo parecido, a reitora da USP, Suely Vilela quando viu a invasão da USP pela tropa de choque não a observou através da janela, mas pela televisão, como alguém que inverte uma luneta para ter a impressão de afastar as conseqüências daquilo que está próximo.

Igualmente para a consciência do pesquisador não é sua responsabilidade o que seja feito com sua pesquisa, pois se atém com paciência e cerimônia a fazer parte de uma pesquisa num projeto temático que só o seu orientador sabe para quê serve. Isto também não importa para o coordenador do projeto temático, que só fez isso para ganhar moral com o “amigo/cliente” pesquisador que coordena o projeto em Brasília  com muito poder nos departamentos da vida.

Este poder de vida e morte, manifestação do mérito contra a democracia, dita a ascensão social de pesquisadores-bolsistas num mundo em crise, não tanto pelo valor das bolsas (apesar de importar muito para os pesquisadores de origem pobre), mas, principalmente, pelo valor simbólico que estabelece o vínculo entre o pesquisador e a instituição, quase como o clero medieval numa ordem estamental. Porquê ele faz isto? Talvez por poder político, por prestígio, para passar por cima dos amigos, ou, outro motivo qualquer, afinal, todo mundo neste setor parece apropriar-se da má-fé, do medo da liberdade que diz Sartre.

A consciência, que muitos pressupõem erroneamente como algo dado no pesquisador, não está sempre presente, em seu lugar encontramos a renúncia da reflexão, do voltar-se para si mesmo, que mostra  a manutenção irrefletida de uma conduta reiterada que ajuda a não pensar sobre as coisas.

Algumas vezes é possível até chamar a polícia para não pensar e falar sobre algo, como no caso citado da  USP, mas poderíamos citar outros exemplos, afinal, pessoas, inclusive, lucram com o “desentendimento”  e a falta de diálogo em instituições públicas, como a empresa Condor (notem, o mesmo nome da legião nazista da Luftwaffe) que persiste na produção de armamento não letal como uma das únicas produtoras do artefato que nos atingiu numa operação que era não apenas de alto custo político, mas igualmente financeiro ao Estado. Tais artefatos são mercadorias que só o Estado pode comprar, e quem mais adoraria que fossem cada vez mais usadas?

E mais, no processo de expulsão de ocupações urbanas e reintegrações de posse que atingem toda a área interior ao Rodoanel, que levam a pensar que as pessoas das periferias estejam sendo jogadas para além dele, quanto gás lacrimogêneo, arma não letal, mas que é arma de uso exclusivo do estado teria sido produzida para gerar dor e anular a fala de sujeitos políticos e sociais. Quem pesquisou isto e quem lucra com isto?

Ora, um aumento expressivo de ações deste tipo envolveria contratos exclusivos com tais empresas, propriedades de ex-militares especialistas em causar dor, que devem, a esta altura, ser os melhores amigos de nosso governador e de quem mais ajudar a impedir que se reflita sobre isto. Será que a sociedade  paulista dos investidores da bolsa garantidos pelo estado, representados pela Folha de São Paulo, será que eles querem mais este filão, como parecem urrar em seu editorial agora despido de qualquer verniz democratizante [8]?  No editorial pedem que o Brasil se preocupe com a defesa. No contexto geopolítico, quando se diz preocupar-se com a defesa, diz-se contra quem se espera um confronto, no caso, poderia ser contra a própria população (caso do regime militar), contra ameaças regionais às aristocracias políticas (como enxergam o chavismo venezuelano) ou contra quem ameace os interesses dos acionistas da Petrobrás na Bolívia.

No entanto, o principal interesse estaria não no fim, mas no meio, no uso de artefatos e talvez no filão de mercado que representa a empresa Embraer privatizada ao beneficiar seus acionistas no  caso de um acordo com a França, o que parece ser mais provável, junto ao interesse de que o Brasil não fabrique arsenal bélico pesado, exceto o da Embraer e o armamento leve que já se produz na empresa Taurus. Isto desde que o estímulo ao conflito entre arrozeiros e índios na fronteira com a Venezuela não teve frutos, dado que não seriam os índios Ianomâmi presentes em ambas as fronteiras a verdadeira ameaça alardeada por militares enfurecidos. Ou realmente teriam representado uma ameaça o ataque de flechas envenenadas contras os soldados do exército que, salvo engano, livremente circulam pelo seu território?

O duplipensar [9] da Folha, o modo de escrever e desdizer o que se fala, envolve que não se pense nas únicas ameaças de conflito, dada a geopolítica regional, que seria o crescimento das bases americanas na Colômbia e, porque não, de uma única preocupação remota com a Guiana, lugar em que os cidadãos brasileiros na atual conjuntura política entram e saem sem problemas, apesar de possuir bases militares francesas em atividade. No artigo, preocupar-se com a Colômbia e a presença dos EUA é chamado de aventura militar, apesar de não ser citada como aventura justamente o que ocorre no Haiti onde os militares brasileiros parecem ter feito a opção tática de ficar com o “mico na mão”, ou degenerar-se como os EUA no Iraque [10] coisa contra o qual advertia Herbert Marcuse: “Nós nos submetemos à produção pacífica dos meios de destruição, à perfeição do desperdício, a ser educados para uma defesa que deforma os defensores e aquilo que êstes defendem”

Estes casos de conflitos internos e externos envolvem a junção de posições políticas e econômicas, pois são muitos os espólios das vendas de armas, seja o do acadêmico que pensa e fala para justificar o que foi e será feito com elas, o do técnico que as desenvolve, do chefe de indústria que as produz, do mercador da morte que as vende, da força militar e ameaçadora que as compra ou o carniceiro regular ou irregular que as utiliza. O que quisemos mostrar apenas a falsidade de se imaginar que a escolha política seja apenas o de que armas se emprega para combater.

*Douglas Rogério Anfra é estudante de mestrado no departamento de Filosofia da USP

TRIBUNA POPULAR EM SP

Posted by Editorial do Outubro | Posted in Contra ou Cultura!!!, Criminalização do Movimento | Posted on 04-08-2009

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Como um desdobramento do Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no Banco dos Réus, que aconteceu em São Paulo em Dezembro de 2008; o coletivo de organizações e militantes que lutam contra a violência do Estado em São Paulo convocam uma Tribuna Popular regional, para preparar e qualificar a discussão de nossa região para a participação no Primeiro Encontro Nacional Popular pela Vida e por uma outra Segurança Pública, a ser realizado este mês em Salvador.

Segue convite de divulgação do evento e carta de convocação.

tribuna popular

CONVOCATÓRIA PARA A TRIBUNA POPULAR DA RESISTÊNCIA DAS VÍTIMAS

DO ESTADO BRASILEIRO EM SÃO PAULO

Data: 8 de agosto de 2009, a partir das 10 horas

Local: Sinsprev – Rua Antonio de Godoi, 88, 2º

Tel. para informações: 3361 7642

Nós, militantes do Tribunal Popular de São Paulo, militantes da causa das vítimas da violência do Estado e, portanto, também vítimas da segurança pública, consideramos que não é nosso papel formular propostas meramente reformistas, por mais humanistas e bem intencionadas que sejam, para a segurança pública a nível federal, estadual ou municipal.

O Ministério da Justiça está convocando a 1ª Conferência Nacional de Segurança (CONSEG), precedida de conferências municipais e estaduais. Mas, os critérios de participação prevêem apenas 40% de representantes da sociedade civil. Paralelamente o governo federal tem incentivado também as “Conferências Livres” que, no entanto, não elegem delegados e nem têm suas resoluções levadas em consideração.

Sendo assim, ao invés de participar das “Conferências Livres” estamos propondo esta TRIBUNA POPULAR DA RESISTÊNCIA DAS VÍTIMAS DO ESTADO BRASILEIRO.

Queremos arrolar as denúncias das conseqüências práticas das políticas de segurança pública que têm se caracterizado pelas mais graves violações aos direitos humanos e pela implantação da barbárie nos territórios da pobreza, nas favelas e bairros periféricos pobres, atingindo sobretudo jovens, negros, indígenas e pobres.

Queremos abrir um espaço para que esses crimes possam ser denunciados. Diariamente agentes do Estado executam sumariamente inocentes, “suspeitos” e “culpados” de delitos para os quais não está prevista a pena de morte. Nenhuma investigação sobre o homicídio praticado pelo policial é feita e o caso é arquivado como “Resistência seguida de morte.” Diariamente presos são torturados nas delegacias e prisões, seja para a obtenção de informação, seja por pura crueldade. Diariamente presos tem os seus direitos previstos na Lei de Execuções Penais desrespeitados pelo Poder Judiciário e pelas autoridades prisionais. Os cárceres, no Brasil, são o exemplo da barbárie sob todos os pontos de vista e São Paulo têm problemas de superlotação que beiram a calamidade, constituindo em si só uma forma de tortura, com seqüelas físicas e psicológicas para os presidiários e seus familiares. Diariamente adolescentes são presos na Fundação Casa em situação de violação dos direitos humanos, quando não torturados, ou mantidos presos injustamente. Quase um terço da população encarcerada é constituído de “provisórios”, presos sem julgamento. Diariamente as populações das favelas e periferias são abordadas com truculência por agentes do Estado, de que são exemplo as diversas “Operações Saturação”, que tratam todos os moradores como perigosos delinqüentes. Diariamente ocorrem despejos de moradores de suas habitações precárias, com o uso de brutalidade, descartando o diálogo e soluções que levem em conta a necessidade de sobrevivência. Os movimentos sociais que têm se organizado para lutar por moradia e terra são também violentamente reprimidos. O mesmo acontece com os movimentos sindicais que ousam desafiar os poderes do Estado e do Capital. Por todo lado são vistas manifestaç ões explícitas ou disfarçadas de racismo e preconceito por orientação sexual ou contra as mulheres, que muitas vezes degeneram em violência.

No Estado de São Paulo, a Defensoria Pública, que deveria garantir o direito à defesa dos pobres, é hostilizada pelo governo Serra e não atende integralmente às demandas, além de não conseguir transcender defesas individuais para a garantia de direitos coletivos. Ao mesmo tempo, a Ouvidoria da Polícia é incapaz de cumprir seu papel, já que não é independente da Secretaria de Segurança Pública do governo estadual.

No campo contrário a todo este sistema, desde o ano passado setores da sociedade que têm sofrido essa situação e se dedicado a lutar contra ela organizaram o Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no Banco dos Réus, que desmascarou as perspectivas oficiais citadas, e que se mantém hoje como uma rede nacional de denúncias e mobilizações populares. Por iniciativa dessa rede, diversos movimentos e organizações do país estão chamando e convocando o Primeiro Encontro Nacional Popular pela Vida e por Uma Outra Segurança Pública que s e realizará de 14 a 16 de agosto em Salvador (Bahia), e terá seus encontros preparatórios estaduais em vários estados. A Tribuna Popular de Santos-SP ocorreu no dia 25 de julho; o Encontro Popular do Espírito Santo será em Vitória-ES no dia 1º de Agosto; o Encontro Popular do Paraná será em Curitiba no dia 1º de agosto também; o Encontro Popular do Rio de Janeiro será na capital nos dias 7 e 8 de agosto; a Tribuna Popular de São Paulo será também na capital no dia 8 de agosto.

Por tudo isso convidamos você para discutirmos juntos, dia 8 de agosto, em São Paulo, como anda a Segurança Pública do Estado de São Paulo, quais os efeitos nocivos que ela tem acarretado para as populações pobres e conclamamos a todos para construir um espaço de resistência.

TRIBUNAL POPULAR – julho de 2009

Serra quer militarizar a educação básica pública estadual.

Posted by Editorial do Outubro | Posted in Criminalização do Movimento, Educação, política institucional | Posted on 06-07-2009

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Como já sabemos, o governador José “Exterminador do Futuro” Serra militariza tudo o que venha lhe trazer algum problema. Já colocou a polícia contra a polícia, a polícia contra o povo pobre de Paraisópolis, a polícia contra professores, funcionários e estudantes da USP, UNESP e UNICAMP, ou seja, a polícia é a principal política pública do social-darwinista que quer ser presidente do Brasil. Agora ele quer implantar a polícia permanentemente no sistema educacional. Segue entrevista de professor da rede pública comentando a questão.
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“Vigiar e punir é política estranha à educação”, avalia professor
Há duas semanas, o governo de São Paulo anunciou parte de um plano de combate à violência nas escolas da rede estadual. O plano se fundamenta na instalação de câmeras nas escolas e no deslocamento de um oficial da Polícia Militar para trabalhar na Secretaria de Estado da Educação. Sua função será “realizar um trabalho de inteligência”.

Serão instaladas 11 mil câmeras em todas as 2200 unidades de ensino da região metropolitana de São Paulo. A proposta é mapear os problemas que ocorrem nas escolas.
O Observatório da Educação entrevistou Eduardo Amaral, professor de filosofia da rede estadual de São Paulo. Ele avalia o plano de combate à violência nas escolas da rede estadual, anunciado pelo Governo de São Paulo.
OE – Como avalia a instalação de câmeras nas escolas da rede estadual de São Paulo como forma de combate à violência?
Eduardo – A impressão geral é ruim, porque traz outro tipo de cultura para a escola, deixando de lado o caráter pedagógico que poderia ter a questão da disciplina escolar. Transforma num caso de polícia. Acho isso grave. Por outro lado, considero que vai ser um enorme gasto de dinheiro e que não terá os resultados esperados. Burlar a câmera ou fazê-la sumir vai virar uma espécie de regra. Acho um equívoco grave do estado, de manter uma política de vigiar e punir, que é absolutamente estranha à educação.
OE – Que impactos a presença das câmeras pode trazer ao cotidiano escolar?
Eduardo – Medidas de vigilância policial tem uma certa dimensão. Se é patrimonial, funciona de um jeito. Se é para incidir sobre disciplina ou violência que se comete contra o professor, há outras alternativas, por mais grave que seja a situação. Passa por uma reestruturação da escola sobre como resolver seus conflitos. A violência explode onde não se tem meios de resolução do conflito. Se não há uma gestão democrática na escola, a relação dos professores e direção da escola em relação aos alunos é pautada pelo autoritarismo. Seria uma medida mais eficaz, mas também de médio e longo prazos, trabalhar para que as escolas resolvam seus conflitos, e estabelecer formas de convívio democrático nas escolas.
OE – E como avalia a idéia de destacar um oficial da policia militar para atuar na secretaria de educação e fazer esse monitoramento?
Eduardo - Considero que a polícia não está preparada para lidar com assuntos da escola, educacionais. Mesmo a ronda escolar que, em tese, deveria ter formação específica para lidar com as pessoas numa ação educativa, não faz isso. Se há violência na escola também há violência da ronda policial em relação aos alunos. Senão agressão física propriamente, violência verbal. Isso, do ponto de vista pedagógico, é uma lástima, porque ensina que é assim que se resolvem os problemas, na base dos berros, na coerção física, fugindo de qualquer formação para cidadania. Ou seja, o que estará se ensinando vai na oposição do que deveríamos esperar de uma escola pública.
OE – Há situações de violência na escola onde você trabalha? Como lida com elas?
Eduardo – Não temos casos. É raro, e de tal modo abafado, que não tem espaço de discussão. A regra nas escolas é a expulsão do aluno, que é uma medida de recusa de qualquer pedagogia, tira-se o problema para não precisar resolver, ou encaminha para outras instâncias, como o boletim de ocorrência, etc. A violência física é quando estoura, e medidas precisam ser tomadas até para proteger a integridade física das pessoas. A questão é como a escola se organiza para resolver seus conflitos mais cotidianos, como estabelece relação mais dialogada e participativa dos alunos. Hoje se fala em protagonismo juvenil, mas isso é mais retórico do que, de fato, ter instâncias dentro da escola em que o jovem do ensino médio possa discutir o que faz na escola, o que espera da escola, quais suas expectativas de vida. São essas questões que aparecem no dia-a-dia da escola, que não consegue responder a esses anseios, angústias de qualquer jovem nessa idade.
OE – Que tipo de política pública deveria ser desenvolvida pelo Estado para lidar com esse tema?
Eduardo - O primeiro é encaminhar como pauta na escola um processo de efetiva democratização de sua gestão. Ter uma escola democrática, em que as coisas têm espaço para serem discutidas, é algo que ainda precisamos conquistar e estabelecer como cultura escolar. Além disso, ter mecanismos de resolução de conflitos, dialogados; há algumas experiências isoladas, mas não vemos ecoar para a rede. Mas não é algo de curto prazo, não há panacéia para resolver o problema. A violência não é apenas de dentro da escola, mas está na sociedade, pelos problemas que ela carrega de desigualdade, e não será uma política pública isolada que conseguirá dar resposta para esse volume de questões.

Chega de chacina, polícia assassina!

Posted by edutiao | Posted in política institucional | Posted on 22-04-2009

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Janeiro, 2009
Por Ali Rocha e José Andery, pelo Tribunal Popular

tribunal-popular_logoEm pleno processo de Fórum Social Mundial (FSM) a violência estatal contra jovens pobres e negros da região metropolitana de Belém (PA), só fez crescer. Conversamos com a ouvidora do Sistema de Segurança Pública do Estado do Pará, Cibele Kuss, que está à frente do órgão desde meados de 2007, e vem notando um aumento expressivo na letalidade policial desde o início deste ano. Entre as causas do problema ela aponta a política de enfrentamento defendida abertamente pelas autoridades de segurança do estado, a apologia a essa prática feita pela grande imprensa e o apoio da sociedade ao uso da violência no combate à criminalidade.

A ouvidoria está acompanhando em torno de 13 homicídios ocorridos nas primeiras seis semanas de 2009 e 90% dos casos apresentam características de execuções sumárias. Cibele vê uma verdadeira criminalização da pobreza já que todas as vítimas executadas moram em bairros de periferia. Ela defende que os órgãos de controle, a sociedade civil e os movimentos sociais trabalhem em conjunto para que um outro mundo seja, de fato, possível.

Você disse que o número de denúncias teve um aumento expressivo desde que assumiu o cargo na ouvidoria?

Sim, tivemos um aumento de 300% nas denúncias, mas o que mais nos assusta é o aumento dos casos de letalidade. Você tem gerações inteiras de policiais militares e civis formados nessa perspectiva de que bandido bom é bandido morto. Aí vem os secretários de segurança pública, os comandantes, os delegados gerais, falando abertamente que a nossa política é repressiva e de tolerância zero. Imagine o que um praça com uma arma na mão, recém saído de seu treinamento, vai fazer com essas armas. Ele está ouvindo tolerância zero, repressão ao crime, imagina… a primeira oportunidade que ele tiver, por uma questão até mesmo de falta de preparo, ele vai acabar cometendo homicídios. Então essa é uma preocupação muito grande.”

Qual o caso recente que você considera mais emblemático?

“Um deles é a Chacina de Curuçambá. A poucos dias do início do FSM um cabo da policia militar foi assassinado durante um assalto em Ananindeua, bairro da periferia de Belém. A PM montou uma operação na área para encontrar os assassinos do policial. Cinco pessoas acabaram mortas na operação, que recebeu o nome de “Reação”. Eles não conseguiram nem mascarar o propósito dessa operação”.

Como a imprensa se posiciona em relação a essas mortes?

“Aqui no nosso estado esses jornais aqui cujas páginas policiais são um derramamento de sangue extremamente sensacionalistas, fazem uma apologia diária à letalidade porque as manchetes são sempre positivas no que diz respeito a letalidade, dizendo coisas como “Mais um bandido fora de circulação”. Então dá a entender que a única forma de acabar com o crime é através da letalidade. E a imprensa acaba reforçando essa tese de que quando um policial mata uma pessoa, se ela for assaltante ou se ela tiver antecedentes criminais, está legitimado.

Esses criminosos, na verdade, deveriam ser presos e julgados…

Sim, isso só aumenta a violência, pois se alguém que tem envolvimento com o crime sabe que não vai passar por um processo jurídico normal, que não vai ser preso, que não vai responder um processo, é óbvio que a letalidade deles também vai aumentar. Você tem um fogo cruzado com um tentando matar o outro. O bandido querendo matar o policial e o policial tentando matar o bandido. E no meio estão todas as outras pessoas.”

E como é a investigação desses casos?

Esses confrontos que aparecem diariamente nos jornais, que nós muitas vezes suspeitamos que aja envolvimento de policiais, raramente são investigados, porque os inquéritos quando saem das delegacias colocam normalmente um auto de resistência seguida de morte, então quando chega no judiciário o judiciário arquiva, porque o réu está morto. Não sai como homicídio… deveria sair como homicídio! Auto de resistência é uma coisa, tem um embasamento legal, mas auto de resistência seguida de morte é uma invenção da policia para realmente mascarar as execuções ocorridas e isso é realmente muito comum. Para impossibilitar a perícia e dificultar ainda mais as investigações os policiais violam a cena do crime, retirando o corpo mesmo quando a pessoa já está morta, colocam dentro da viatura e levam para o hospital e desaparecem com as armas e balas.”

E qual o papel da sociedade civil nisso tudo?

“Primeiro nós temos que conscientizar a sociedade em geral de como funciona esse jogo das execuções sumárias, e de como nós somos coagidos também e de como nós somos levados a acreditar que aquilo realmente foi um confronto porque como aparece muitas vezes na imprensa é que foi um confronto, mas, as pessoas em geral não sabem como funciona isso. O outro grande desafio está nesse processo de monitoramento dos casos de letalidade. Esse monitoramento é responsabilidade da sociedade civil também. Ela deve se organizar e dizer pros corregedores, pro judiciário, “Olha, nós estamos aqui acompanhando estes casos e nós queremos que essa investigação seja feita com transparência”.

E as vítimas dessa letalidade policial são em geral homens pobres e negros…

E muito jovens, na adolescência ou início da fase adulta. E é realmente esse extermínio da população negra que é impressionante, esse eixo da cor é taxativo. Você identifica que são essas pessoas que estão mais distantes das políticas públicas de inclusão social. Elas são realmente as maiores vitimas. E são as mulheres que ficam viúvas, que ficam órfãs de filho, que vem procurar a ouvidoria. Na maioria das vezes são as mães que já tiveram outros filhos também assassinados pela policia ou mortos em algum outro tipo de crime, mas que é consecutivo, a historia dessas famílias é marcada por essa violência, por essas tragédias. É impressionante.”

Você acredita que o mesmo aconteceria se as vitimas fossem da classe média?

“Quando houve o assassinato agora recente de algumas pessoas cujas referências profissionais eram publicas – médico, procurador, você teve um apelo e um direcionamento muito grande da classe média – imprensa chamava para caminhadas, para passeatas pela paz, havia realmente uma pressão eu diria até financeira sobre o governo para que tomasse providências porque pessoas de bem morreram. Enquanto que todas as mobilizações que nós fazemos, quando há casos de violência contra crianças e adolescentes ou assassinatos de jovens da periferia, você tem realmente um abandono total. Aí a sociedade se manifesta mesmo com indiferença ou publicamente dizendo que estão ai defendendo os bandidos novamente.”

A nossa sociedade então está dividida em cidadãos de 1a e 2a classe?

“Isso ficou muito explicito. Muito explicito o quanto a classe média é hipócrita, e como as elites ainda tem o poder de conduzir os comandos da segurança publica no nosso estado. Devemos falar mais abertamente sobre essa hipocrisia de poder dizer que esses mandos e desmandos estão ligados a uma classe social muito branca, muito rica, muito detentora dessas cotas na política e que isso tem um reflexo muito grande mesmo na sociedade, a estigmatização de grupos, de pessoas, da juventude, principalmente da juventude negra e trabalhar mesmo em processos de formação, de capacitação da juventude”.

Como funciona o corporativismo na policia?

É uma situação muito difícil também para os próprios policiais militares e civis que ainda possuem um pouco de dignidade e amor a farda, porque manter-se digno e fiel a essa profissão é um exercício diário de resistência, e nós temos que dar todo apoio para aqueles policiais que tem um envolvimento nesse compromisso. Nós tivemos casos aqui de policiais que nos procuraram dizendo que estavam sendo ameaçados pelos próprios colegas. Teve um policial militar cujo afilhado de 16 anos foi morto por policiais. Ele foi até o local do crime e por ter se recusado a cumprimentar os policiais que ali estavam, imediatamente depois passou a sofrer ameaças. Ele confessou que hoje tem mais medo da policia do que de bandidos e isso me chocou muito. Em outro caso, policiais foram acionados para impedir um linchamento de dois assaltantes por moradores da comunidade. Quando foram atender a ocorrência, descobriram que os dois rapazes haviam assaltado uma mercearia onde seus colegas de farda faziam bico de segurança e que teriam sido os próprios policiais a incitar o linchamento. Depois disso, passaram a ser perseguidos por esses colegas.”

O judiciário também contribui para a impunidade dos policiais?

“Os inquéritos já saem das delegacias com muita fragilidade e o judiciário não se manifesta em relação a isso, então obviamente nós vamos ter um resultado muito ruim. Muitas vezes a gente encontra promotores que solicitam no processo já de investigação que mude delegado, que fazem algumas articulações para que se coloque lá um delegado ou uma delegada que possa presidir esse inquérito, que seja uma pessoa menos comprometida, que tenha mais autonomia. Mas aí depende muito do comprometimento do promotor que está acompanhando aquele caso. E a isso a gente precisa dar valor. Mas na maioria dos casos não tem, o judiciário está completamente absorvido com a quantidade de processos que tem e devolve esses inquéritos para que aja uma melhor investigação. Muitas vezes nem identifica as falhas no inquérito. E acaba absolvendo os policiais.”

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E como o que a ouvidoria pode fazer sobre isso?

“A ouvidoria tem que ter um papel mais ativo no monitoramento da investigação dos casos. Em muitos casos que estamos acompanhando, estamos em diálogo direto com o promotor justamente pra fazer um trabalho em conjunto, para verificar como foi construído esse inquérito, quais foram as falhas encontradas e o que a gente ainda pode voltar atrás para verificar. Acho que esse é um trabalho fundamental da ouvidoria, se nós conseguirmos sistematicamente fazer esse tipo de coisa pelo menos nos casos mais emblemáticos, teremos um avanço.”

O que dizer de uma ouvidoria que recebe uma denúncia e simplesmente a encaminha para a corregedoria, sem fazer nenhum acompanhamento?

Aí vamos fechar as portas! Se a ouvidoria se reduzir a mandar um documento para a corregedoria, pode fechar a porta porque, para isso não precisa ter ouvidoria, pra isso qualquer pessoa pode fazer, se é só pra mandar um oficio solicitando, não tem função nenhuma. Nós temos que realmente monitorar. Isso significa sentar com o corregedor, isso significa ir até a delegacia, conversar às vezes com o delegado, perguntar que tipo de investigação é essa, porque muitas vezes a gente vai até a corregedoria e a pessoa encarregada pelo casos diz, “Não, mas eu fui lá, eu investiguei, eu fui lá, eu verifiquei”. Mas como é que as outras quatro pessoas viram coisas diferentes? Aí você fazendo contato com as pessoas envolvidas, vai tendo intuições e vai descobrindo coisas no decorrer dessa aproximação. A ouvidoria tem que ter proximidade das pessoas, dos casos, para conseguir contribuir.”

Muitas pessoas não fazem denúncias por receio de que nada será feito.

“É que essa situação se parece tão institucionalizada que as pessoas se vêem desestimuladas a denunciar, ou desistem no meio do processo, por acreditar que será uma perda de tempo. Mas um bom monitoramento dos órgãos de controle é essencial para trazer bons resultados. Temos que acreditar que é possível mudar esse quadro e apontar os erros e manipulações. É fundamental que a gente consiga identificar ao final do processo todo, que aquilo aconteceu porque essa ainda é uma prática, por esse ou aquele motivo. Se nós não dermos pelo menos visibilidade a isso, de que aconteceu esse resultado porque houve uma série de comprometimentos no decorrer, aí nós estaremos totalmente omissos”.

Você acha que uma polícia comunitária ajudaria a resolver o problema?

“Sim, eu acredito que esse programa de formação de segurança comunitária, de segurança cidadã, de policia comunitária tem um eixo temático muito interessante, eu acho que é realmente fundamental. Você inverte realmente a lógica daquele policial frenético, enlouquecido, com armas na mão dentro de um carro enlouquecidamente, sem se relacionar com ninguém, para um policial que realmente caminha, para tal da policia de proximidade. Mas pra que isso realmente aconteça você tem que ter uma conjuntura, um contexto preparado para isso, porque nas periferias e em algumas áreas as pessoas não querem essa policia. A classe média não quer essa policia, a elite não quer essa policia. A elite quer a policia que afaste as pessoas de perto delas, que afaste os pobres, que afaste aquele que chega para pedir alguma coisa, porque ela morre de medo de que alguém que bate no vidro do seu carro, vai assassiná-lo.

Os policiais continuam matando porque sabem que continuarão impunes?

“Temos que fazer uma série histórica de punições aos policiais violadores de direitos humanos. As punições exemplares são fundamentais porque repercutem internamente dentro das corporações. Elas tem uma força enorme de criar novos referenciais, de realmente instaurar uma política pautada na ética. Na maioria das vezes policiais infratores não são punidos nem administrativamente. Quando o são, uma semana depois já estão soltos e duas semanas depois já estarão divididos em outros lugares. Acho que esse é um grande desafio nosso, verificar que tipo de punição exemplar eles estão realmente fazendo.

O que se verifica aqui e acolá é alguma punição noticiada por algum órgão de imprensa, para afirmar que a o estado está punindo seus filhos. Mas e depois? Essas manchetes não tem fundamentação, são apenas manchetes para aquietar a sociedade civil organizada e para nos enganar.”

Alguma consideração final?

A classe média, a elite, tem medo das crianças nos faróis, nas paradas por ai pedindo. Acho que a gente tem que ter coragem de falar mais abertamente sobre isso. E de trabalhar mais pra autonomia dos nossos órgãos, para que eles realmente possam trabalhar mais numa perspectiva de que a política de segurança publica tem que ter equidade. Uma política de segurança publica que não tiver equidade, sempre vai matar mais juventude negra e fazer cada vez mais segurança privada e segurança nos bairros ricos.